3.12.11
você
22.11.11
Sentir...
7.11.11
É noite,
30.10.11
O sol sumiu
1.10.11
| Capricórnio - 22/12 a 20/01 |
20.9.11
Colorir
8.9.11
Noite morta
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
Manuel Bandeira
31.8.11
30.8.11
15.01, dia da inevitabilidade heroica
25.8.11
Sol na casa 1, lua na casa 12
A Lua está quase nova no céu, transitando pela Casa 12, enquanto que o Sol se encontra na Casa 1, entre os dias 25/08 (hoje) às 7h51 e 27/08 às 7h05. A sua sensibilidade estará também mais ativa, de modo que neste período há o risco de você ter reações um pouco exageradas a determinadas coisas que em outros momentos sequer lhe incomodariam. Lembre-se de refletir neste momento, e procurar observar se você não está tendo reações um pouco exageradas. É possível, inclusive, que você venha a ficar lembrando de coisas não muito agradáveis... Que tal ter uma postura prática em relação a tais questões, Fernanda? Sol e Lua se reencontrarão em poucos dias, na fase da Lua Nova, que representa um momento de renascimento geral. Procure, nestes dias, meditar e refletir a respeito das coisas que você modificaria em si.
9.8.11
CAPRICÓRNIO (de 22 de dezembro a 20 de janeiro)
Como a cabra de João Cabral.
Eu amo a mulher de capricórnio
Porque ela nunca lhe põe os próprios.
A caprina é tão ciumenta
Que até o ciúmes ela inventa.
Mulher fiel está aí: é cabra
Só que com muito abracadabra.
Suas flores: a papoula e o cânhamo
De onde vem o ópio e a maconha
Ela é uma curtição medonha
Por isso nos capricorniamos.
Vinícius de Moraes
8.8.11
Querido
29.7.11
Açúcar
27.7.11
Pablo Neruda
9.7.11
27.6.11
Nunca o saberão
Na minha mente, quantos sonhos ganham formas,
Tão novos, tão únicos, tão especiais - e em vão.
22.6.11
17.6.11
Tabacaria
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15.01.1928
Nunca o saberão
Na minha mente, quantos sonhos ganham formas,
Tão novos, tão únicos, tão especiais - e em vão.
16.6.11
10.6.11
26.5.11
24.5.11
Um dia
Era uma vez um sorriso.
Um dia o par de olhos tropeçou no sorriso.
O par de olhos se debruçou no sorriso...
O par de olhos amou o sorriso.
Um dia o sorriso foi seu.
Era uma vez um outro sorriso.
20.5.11
Mas Eu
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.
Álvaro de Campos
17.5.11
Relacionamento
Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa: "- Ah, terminei o namoro... - Nossa, estavam juntos há tanto tempo... - Cinco anos... Que pena... Acabou... - É... Não deu certo". Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro? E não temos essa coisa completa. Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível. Tudo junto, não vamos encontrar. Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele. Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona... Acho que o beijo é importante... E se o beijo bate... Se joga... Se não bate... Mais um Martini, por favor... E vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer. Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... Ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão? O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo. E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar... Enfim... Quem disse que ser adulto é fácil?
Não sei quantas almas tenho
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.
(Fernando Pessoa)
16.5.11
15.5.11
O nada
121
11.5.11
unvorstellbare Gefühle
8.5.11
É pesado
Todas essas linhas talvez não façam o menor sentido: o fato é que dói.
30.4.11
Preguiça de viver
Lindinho
26.4.11
il fait chaud
14.4.11
Insanidade
É talvez o último dia da minha vida.
É talvez o último dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
(Alberto Caeiro)
Pássaro, um pássaro
10.4.11
Madrugada
4.4.11
Ternura
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.
Não deixe o amor passar
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade
É diferente
Hoje, às vezes, seus cílios se beijam, se separam, você sussurra palavras no meio desse breve despertar e volta a dormir enquanto eu me perco na doçura do seu piscar e me palpita o coração uma coisa que borbulha, que me embriaga e me deixa fora de mim... E eu me aconchego em você, sinto sua pele quente, você me aperta para si, entreabre os olhos e esboça um sorriso pra mim, o mais lindo de todos... Seu sorriso me convida a sorrir junto e fico impotente, com um sorriso preso ao rosto enquanto meu peito está cheio de uma felicidade paradoxal, ora tão suave, ora tão intensa...
Infinitos sorrisos para todo o universo, ainda que durassem a eternidade, não valeriam um instante daquele sorriso para mim.
3.4.11
31.3.11
28.3.11
C'est mort
A impotência (e uma pitada de egoísmo)
A impotência de viver
22.3.11
Lua
13.3.11
7.3.11
A hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Vinicius de Moraes
Trevo
(Embora não conte que vá perdê-la, guardo uma dúzia de trevos no bolso para possíveis imprevistos.)
3.3.11
Paradoxo
Que me habita confusamente.
Desdenho da clareza das ideias
Quando mal sei cuidar de antíteses.
Tombando entre impossibilidades,
Vejo-me tão atraída por esse mundo
Que me reservam as inconstâncias da alma!
Vivo a claridade do breu pelo qual
Oscilam minhas falsas verdades.
Brumas desnudam minha fajuta realidade,
A névoa abraça as incertezas que vagam.
Um vulcão entra calmo em erupção
E a crueldade da destruição torna-se...
Algo como gosto ou prazer.
Embargam-me os olhos emoções impossíveis,
Um temor alegre, felicidade e tristeza compassivas;
Bebo sedenta o copo de vinho vazio
No qual mergulham minhas mágoas mortas.
Relampeja um amor nas minhas entrenhas,
O sangue ferve e congela ao mesmo tempo,
As dúvidas semeiam minhas células.
Entro em colapso existencial.
Eis que, quando já me cansam
Todas essas contradições de ser,
Tateio o intangível
E - plenamente como nunca - me descubro humana...
Sentir é próprio da alma
Eis que faz-se silêncio. De súbito os pés sentem-se envolver por gelo - não, por água, por uma água incrivelmente gelada, docemente gelada, que acorda os pés à vida... E as mãos, assim como os pés, sentem grãos de areia, um, dois, cinco, doze, cem, mil... O cheiro de sal é forte, o sol já está mais fraco - teria uma nuvem o encoberto? - quando vem ao socorro daquelas emoções confusas a força. De repente os braços empurram aquele tronco inseguro, as pernas se cruzam no impulso do levantar. E a força é tamanha que, não fossem as sobrancelhas baixas, jamais teriam cogitado haver medo sob aquela pele sensível. Os pés caminham firmes enquanto as pernas se molham; as mãos não podem estar mais seguras enquanto a barriga e as costam se banham, trazendo um arrepio à nuca. A água já está pela altura do pescoço quando a mão leva à boca um pouco daquele mar e, para aquela língua tão especial, esse gosto deveria ter um nome especial, talvez algo próximo de "salgado", "exótico", "delicioso"... Ou nada que as palavras conhecessem também. Pouco importa: a vontade é de sentir por inteiro aquele mar. A cabeça se deixa afundar e os braços, inclinados para a frente, abrem-se e fecham-se, e o desejo é de devorar o mar, o oceano inteiro. Quando os pulmões já querem reconquistar o ar, os olhos já seriam completamente inúteis. Num balançar suave, todos os membros, numa harmonia incomparável, guiam-se de volta à terra. Quando cessa o contato com a água, as emoções não são pesadas, mas tão leves quanto hélio. A alma vive novamente e sente... Será que ela nunca havia sentido antes? Aquelas emoções fazem aquela alma enxergar como olhos nunca a tinham feito enxergar antes.
1.3.11
27.2.11
Análise
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa, 12-1911
20.2.11
♥
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18.2.11
Maybe you're gonna be the one
16.2.11
Referencial
Eu, tonta feito uma criança frente ao brinquedo novo, sou carregada para perto de você por magia. Quando a nossa distância diminui à metade, quero correr com o dobro de velocidade para abraçá-lo; quando estou muito perto, a força que me leva a você é imensuravelmente poderosa... Preciso do seu abraço, quero segurar sua mão e cobrir seu rosto de beijos por minutos, horas, talvez até dias...
Ah, esse campo magnético que me direciona a você, escondido pelo meu referencial. Sendo campo, não é visível, mas o comportamento é tão recorrente, tão óbvio, tão claro, é impossível não notar sua presença! Quem não notaria a causa de uma força que segue tão fielmente as leis da natureza?
Maldito referencial, por que não consigo ver o que essa atração me causa? Malditas leis da natureza - da vida: sempre ali, mas quem conhece suas causas? Qual é a causa dessa atração fora de série que você exerce sobre mim?
(Vou confidenciá-la a você: é tudo culpa do seu sorriso)
14.2.11
Lá do fundo...
Nunca mais confiei nela.
Ele me olhava de soslaio enquanto eu suspirava. O dia era o mais lindo, as borboletas pipocavam no ar - eu mal podia contá-las! - e eu poderia dividir minha alegria com cada um ali...
Aí ele me agarrou e não me soltou mais.
Grito por socorro, mas, lá no fundo, sei que ninguém pode me ajudar. Esse sentimento que angustia, que entristece, que carrega consigo toda a mortal desconfiança me põe numa corda bamba. Me deixa, desapontamento...
Tristeza
Só quero sentir esse gostinho de felicidade - a mais pura que há - de tê-lo aqui comigo...
Sorte.
"A felicidade é a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor"
8.2.11
Algodão doce
Amordaçada
7.2.11
Quero escrever
Saudade impotente
6.2.11
verschwinden
5.2.11
medo
Se eu soubesse o desfecho da história, acho que teria feito tudo diferente. Entreguei-me cegamente e logo tínhamos os dedos abotoados de Machado. Confiei a você meus segredos, dediquei a você todo o meu carinho e guardei meus risos - os mais puros, os da criança que vivia a rir em mim - para você. Fui feliz.
Decepção, decepções. Previ o fim.
Aí fim.
Vazio. Quando a vida se tornou mecânica, um jogo de obrigações vitais, eu queria me entregar ao sono. Não acordar era não sentir. Só queria mergulhar num novo azul.
Sumi. Minha criança - que hoje chamo "felicidade" - desapareceu.
O azul do mar eu sabia que era estonteante - entretanto, àquela altura, era só o retrato muita água junta. Queria amá-lo.
O que tive à minha volta por aquele tempo infinito? A dor me tornou o mundo preto e branco, de vez em quando via-me numa escuridão absoluta...
Comi, bebi, dormi, andei. Respirei. Vi, não enxerguei. Esqueci que a felicidade deve ser conquistada a cada dia...
Aí lembrei. E fui feliz de novo.
Feliz, mas receosa como uma flor antes de desabrochar. Poupei-me, evitei, fugi. Quando qualquer sensação que eu suspeitasse ser amor tentava tomar espaço dentro de mim, eu a reprimia e a calava para sempre. Morreria ali esse maldito sentimento que me cegara às cores (que eu ainda via pouco vivas).
Até que chegou o ano que mudou tudo...
Mudou aos poucos, mas irreversivelmente. As sensações à flor da pele, exacerbadas e extremistas, me carregaram a realidade dos sentimentos. Não se arriscar à alegria é negar a vida... Os riscos são necessários e eu via isso (via; não arriscava). Ri, chorei, gritei de raiva, gritei minha felicidade ao mundo, guardei quietinha minhas frustrações. Os sentimentos pulsados nas minhas veias me faziam querer experimentar coisas novas e reviver o amor...
Minha vontade de viver me trouxe a um sonho, a uma reprodução aleatória de músicas, a uma confusão e, finalmente, à utopia que era você. Sabia que você me desviaria do meu caminho - literalmente ou não - e você, involuntariamente, fez de mim alguém feliz só por existir e caminhar ali perto. Você nunca me imaginaria, muito menos saberia ter-me feito nova.
Aprecio a redundância que segue ainda nesta frase: acasos deliciosamente aleatórios trouxeram você pra perto por uns momentos que despertaram minha criança adormecida (já há tempos não mais ao leito da morte). E desde sempre eu amei seu sorriso. Mais acasos e uma chuva de felicidade saltitava inquieta em mim. Sinto-a ainda ao ler seu nome...
Pena o mesmo destino que trouxe o acaso ter trazido o descaso.
O tempo quer me levar você. Minha criança não quer se calar, mas não posso me arriscar... Arrasto das profundezas da alma um explosivo "eu adoro você". Já é tarde demais para evitar... Você me desvirtuou do costume de desviar de riscos e eu me arrisquei. Um irremediavelmente eufórico sentimento me coloriu o mundo das cores mais nítidas, mais brilhantes - cores apaixonantes... E você é cheio delas. E você me aconchega num abraço e as cores são tão lindas que eu mal aguento - vermelho, verde, rosa, azul, preto...
Estou suspensa por um fio prestes a se arrebentar. Você me prendeu às nuvens... Amo a sensação de voar, mas minha consciência, com o trauma de suas experiências, me obriga a olhar pra baixo, e as cores somem e só me sobra a escuridão de novo...
Tenho tanto medo de perdê-lo, de não poder mais entregar aos seus olhos todas as minhas confissões, as minhas histórias, meus dilemas, meus segredos mais preciosos... Medo de você estar no chão rindo da minha ilusão àquela exagerada altitude, aproveitando minha profunda felicidade até enquanto durar a sua breve alegria... A distância quer me arrancar você e, embora eu não queira deixar de maneira alguma, tenho medo de ser essa a sua vontade... Temo seus sentimentos. Tenho medo de o seu sorriso não carregar a felicidade que o meu sempre carrega ao vê-lo... Medo de ser tudo unilateral, de ser tudo ilusão desses sentimentos fora de controle dentro de mim.
Sinto saudades e meu medo, carente, convida a angústia, a tristeza e a solidão para lhe fazerem companhia... Hoje me sinto plena e desesperadamente melancólica.
Mais cedo me entreguei às ondas e você pintou o mar de um azul pelo qual eu me apaixonei... E agora não era mais água aglomerada, era - quem diria - um mar, um oceano inteiro!
Mas que medo, que saudade, que tristeza, que vazio...
(Aqui dentro, minha criança ri. E eu amo o mar.)
