3.12.11

você

Há tantos cheiros seus e há tanto de você em tantos cheiros seus. As memórias de cada aroma me jogam no passado que eu apaixonadamente compartilhei com você - nos dias de verão compulsoriamente passados no ar condicionado, na vez em que você me puxou pela cintura e, embora magoada, não pude evitar meu amor, nos seus olhos vermelhos desequilibrando lágrimas por eu precisar ir e deixá-lo com febre em casa, na euforia escondida da minha mente entrando em colapso por beijá-lo, na vez em que descansaríamos por 15 minutos antes de estudarmos e acabamos deixando toda a noite correr, em quando você realmente sugeriu que fizéssemos algo e fez de mim a pessoa mais feliz entre as milhões da cidade, nas noites em que eu notava Vênus ali, nos observando e nos dizendo, enquanto refletia nos seus olhos: "cá está um pouco de amor pra vocês também" - era só mais um pouco mais do sentimento que você há muito regava em mim.

22.11.11

Sentir...

Sentir, sentir, sentir. Acompanhar. Deitar. Entrelaçar. Sentir, sentir, sentir. Olhar. Sorrir. Rir. Dizer. Sentir, sentir, sentir... Confessar. Apaixonar. Entregar. Sentir, sentir, sentir... Sentir. Abraçar. Beijar. Admirar. Sentir, sentir, sentir - sentir. Afagar. Fechar. Deslizar. Sentir, sentir, sentir... Sentir... Sentir... Abrir. Amar. Sentir... Sentir... Sentir...
Ser.

7.11.11

É noite,

É noite e estou caminhando por uma rocha... Não consigo perceber os detalhes à minha volta: só sei que está escuro e não há nada ao meu redor além do chão. Isso parece uma falésia, quem sabe? Tudo está escuro e ela está coberta por musgos... Distraidamente olho para cima - o céu está preto e não há sinal de estrelas. Caminho não sei para onde. De repete dou um passo em falso - vou cair, despencar! Meu corpo se sacode, dá um pulo - e bagunça as cobertas. Era só um sonho, enfim.

30.10.11

O sol sumiu

O calor capaz de derreter uma rocha parecia que reinaria absoluto - isso até a chuva me levar assustada à janela enquanto a noite relampejava como se a chuva quisesse dizer, atrasada na festa: "ei, estou aqui também".

1.10.11


Capricórnio - 22/12 a 20/01


Cultivar boa imagem e levar em conta o que os outros estão pensando sobre ela pode ser importante para você, mas na primeira semana o que mais terá importância é considerar o que tem eco e validade para sua pessoa, em primeiro lugar. Você poderá se surpreender e descobrir mais liberdade.
Vivências intensas e dramáticas por volta da Lua crescente em Capricórnio, no dia 4, colocam em movimento todo um processo de revitalização e alinhamento com sua natureza verdadeira – a mais honesta possível. Você estará preparado para se perguntar se determinadas atividades, posições, imagens e sua carreira são condizentes com quem você é. Provavelmente, terá de mudar alguma coisa no mundo lá fora para que ele se torne mais harmonioso e coerente com essa nova pessoa que vai nascendo, mais consciente e desligada de apegos inúteis.
A partir da segunda semana, será mais e mais importante retomar o que você deixou parado, resgatar projetos e interesses e se questionar, sem máscaras. Claro que é mais fácil fazer isso de você para você mesmo. Mas os resultados podem surgir a partir da Lua cheia em Áries, que ocorre no dia 11. Nos dias seguintes, além de estar mais animado e voltado para a sua vida pessoal, chega a hora de atender e cuidar do que ninguém vê, como a sua intimidade e os sentimentos.
Depois de confrontar desejos com realidade na primeira quinzena e de projetar suas esperanças e anseios no futuro, chega a hora de trabalhar firme pela realização de seus sonhos mais caros. O Sol dá o sinal verde em 23 de outubro, quando ingressa no concentrado e persistente Escorpião, signo amigo do seu. Por falar em amigos, eles não faltarão a partir desta data. Serão como boas almas ou anjos zelosos que ajudarão você a realizar um projeto ou chegar mais perto de uma meta.
Se você anda pensando em entrar para um clube, este é o momento certo de pedir para que um amigo o indique.
Será assim que então poderá olhar para trás e ver que outubro foi um mês em que andou muito, não na direção do que a sociedade esperava de você, mas do que precisa e de quem é, no miolo do coração.

Saúde
Grande poder de regeneração está em movimento neste mês e você pode se valer dele em todo tipo de tratamento e cura que estiver fazendo. Pele, cabelos, dentes e sistema urinário devem ficar sob controle. Se você já tem problemas, redobre a atenção e busque, na primeira quinzena, soluções novas. Serão mais efetivas. A partir da segunda quinzena, mais vitalidade e resistência. Porém mantenha uma rotina de desintoxicação e respeito aos horários de sono, especialmente de 28 a 31 de outubro.

Amor
As duas primeiras semanas do mês prometem variedade, movimento e um colorido especia. Os assuntos da família e da vida íntima ganham mais destaque ainda após a Lua cheia em Áries, no dia 11. Provavelmente, terá de tomar decisões relevantes em 11, 12 ou 21 de outubro, que têm direta relação com seus país ou pessoas mais velhas. O peso dos sentimentos será decisivo, então se prepare para lutar pelo que acha certo nestes dias, pois não obterá apoio facilmente.
Na virada da primeira para a segunda semana, Mercúrio e Saturno anunciam que será mais difícil estar ao lado dos que ama, provavelmente devido a obrigações ou funções que você assumiu anteriormente. Não será possível adiá-las ou suspendê-las, portanto não se culpe por isso.
Se deseja acabar de uma vez com uma relação chata e desgastante, preste atenção no período a partir do dia 20, quando a Lua minguante em Câncer e um excelente aspecto entre Júpiter e Saturno fortalecem suas decisões. As coisas acontecerão em clima de carinho e muita dignidade.
Se amigos ou amores se vão em outubro, é também verdade que você irá recuperar o gosto por alguns dos mais fiéis companheiros que tem. A partir da terceira semana, o céu protegerá suas amizades como nunca. Um amor pode virar amizade da terceira para a quarta semana, portanto fique de olhos bem abertos por onde andar nestes dias.
No amor, quanto mais encontro mental e interesses objetivos você sentir que tem com a outra pessoa, mais irá se engajar e fazer de tudo para que a parceria dê certo. Em outubro, você está ligado em projetos, planos a dois e esperanças compartilhadas. Caso a outra pessoa esteja um pouco ausente, avalie se o que está faltando é dialogo. Mercúrio pode ter todas as respostas entre 25 e 28, mas cuidado com agressões inúteis.
Novas amizades podem e devem ser reforçadas a partir da Lua nova em Escorpião. O ponto alto desta tendência ocorre de 26 a 29 de outubro. Você pode conhecer alguém que terá impacto em sua maneira de encarar a vida e será um amigo de verdade.

Finanças
Sem dúvida, um dos melhores meses do ano para focalizar esforço e criatividade na carreira é quando o Sol transita Libra. Em 2011, isso se estende até 23 de outubro. Será também um período de colheitas. Se você fez tudo direito, pode esperar mais destaque, sucesso e prestígio nestas semanas. Caso contrário, é possível corrigir o que não saiu como você esperava.
Por falar em correções e avaliações, atente para a terceira semana, quando diversos aspectos astrológicos sinalizam decisões pautadas por um forte senso de realismo e decepção. Você poderá finalizar uma parceria que não vem dando resultado a partir da Lua minguante em Câncer, no dia 20. O ritmo se torna mais calmo também para adaptar-se a novas requisições do trabalho.
Prepare-se para receber um convite interessante por parte de um amigo ou uma pessoa que você conhece pela profissão. Se a intenção for se associar a um clube de investimentos, também pode ser este o caso. Desde o fim de outubro, a conjuntura astral pode favorecer as iniciativas tomadas em conjunto. Como você tem o pé no chão, dificilmente vai cair em armadilhas financeiras. Peça tudo assinado e bem documentado.
Outubro é o mês ideal para você se associar a entidades de classe e, por meio delas, intervir para criar um futuro melhor para quem faz parte de sua profissão ou carreira. Portanto, pequenos investimentos financeiros cabem na medida certa aqui. Eles serão seus passaportes para agir em conjunto.
Quanto a dinheiro e bens materiais, anote os dias 20 a 22, quando Mercúrio e Netuno formam um lindo aspecto e sinalizam uma chance de investimento em algo idealizado por você. De resto, será um mês de colheitas. No dia 31, evite fazer transações de grande vulto, tenha cuidado com cartões de crédito na internet e não assine contratos sem ler as entrelinhas.

20.9.11

Colorir

Hoje acordei decidida a mudar.
Os tons que me preenchem a vida não são os que eu quero...

O trabalho de montar o quarto...
De enchê-lo de quadros... De recriar as janelas...
De colocar na casa um telhado novo...
As reticências me levam numa correnteza...
Onda forte...
Difícil fugir.

Difícil mesmo é enxergar o principal trabalho:
O trabalho de desmontar o quarto...
De arrancar os quadros... De consertar as janelas...
De destelhar a casa - de telhas tão fracas! - para, enfim, colocar um telhado novo...
As reticências me levam numa correnteza...
Onda forte...

Mais forte ainda é a sede voraz por viver,
Por fazer,
Por crescer,
Por me preencher,
Por ser.

Recrio e invento cores,
Pinto as paredes do meu quarto,
Arranco quadros e desvio dos pregos espalhados pelo chão,
Colo pelos cantos recordações e saudades,
Enxergo as cores que eu quero que preencham a minha vida.

A vida sempre pode recomeçar;
E, ao me dar conta das sutilezas dos tons que me encantam,
Começo a recolorir e recriar a vida.

Faço-me, enfim, nova.
Farei-me, enfim, feliz.

8.9.11

Noite morta

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...

(Não desta noite, mas de outra maior.)


Manuel Bandeira
Petrópolis, 1921

31.8.11

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos.
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Alberto Caeiro

30.8.11

15.01, dia da inevitabilidade heroica

Quinze da Janeiro

Dia da inevitabilidade heroica

Nascidos neste dia: Martin Luther King Jr. (líder americano dos direitos civis, prêmio Nobel da paz, pastor, fundador da Southern Christian Leadership Conference, assassinado), Joana d'Arc (visionária francesa, líder militar, morreu na fogueira), Molière (dramaturgo francês, O Misantropo), Aristóteles Onassis (armador e magnada grego), Lloyd Bridges (ator de cinema e televisão, pai de Beau e Jeff), Margaret O'Brien (atriz de cinema), João Batista Figueiredo (militar e ex-presidente do Brasil), Flávio Cavalcanti (jornalista e apresentador de televisão).


Os nascidos no dia 15 de janeiro deparam-se inevitavelmente com o tema do heroísmo em suas vidas. É seu dever, ao mesmo tempo, localizar o centro destemido dentro de si e, após descobri-lo, confiar nele em situações de crise e estresse. Com frequência, os nasicdos neste dia não têm consciência de sua natureza heroica, até que o destino lhes apresente um desafio que a revela totalmente. Até este momento, é muito provável que levem uma vida razoavelmente moderada, talvez comum. O evento ou eventos que levam a essa ocorrência provavelmente se dão no final da faixa dos vinte anos de idade.

Os nascidos em 15 de janeiro, muitas vezes, manifestam alguma forma de idolatria ou outra fixação romântica por heróis em sua infância, sejam figuras reais ou fantasiosas. Essa pessoa pode até mesmo ser um dos pais, mas é mais provável que seja uma pessoa substituta, pela qual se sentem atraídos. Assumir o papel de herói ou heroína pode ser como um ato de iniciação, um rito de passagem, para os nascidos em 15 de janeiro, que podem ter dificuldades em ir mas fundo em seu desenvolvimento até que tenha ocorrido. Algumas pessoas nascidas neste dia apenas realizam tal destino quando elas mesmas se tornam pais e ocupam um lugar heróico aos olhos dos próprios filhos.

Os nascidos em 15 de janeiro podem ou não ser sociáveis, mas sentem-se magneticamente atraídos para certas figuras-chave no início da faixa dos trinta anos, que não apenas inspiram-nos, mas também os ajudam em seu processo de autodescoberta. Esses guias, instrutores ou
mentores em geral geral, exercem profunda influência em sua carreira. O amor, ou pelo menos a amizade e a afeição profunda, em geral figuram proeminentemente em seus relacionamentos.

Expressar revolta é parte fundamental da maturidade das crianças e dos jovens nascidos neste dia. Sentem a injustiça muito intensamente e estão, portanto, prontos para lutar contra qualquer forma de opressão ou intolerância que encontrem. Muitas têm um exterior aprazível, até mesmo inocente, que não corresponde à sua força interior. Aqueles que tentam tirar vantagem dos nascidos em 15 de janeiro porque suspeitam que sejam fracos, ingênuos ou crédulos terão uma grande surpresa. Os nascidos em 15 de janeiro aprendem rapidamente com as próprias experiências e, em geral, aprovam a frase: "Me faça de bobo uma vez, será uma vergonha para você, me faça de bobo outra fez, e será uma vergonha para mim."

Os nascidos em 15 de janeiro devem tomar cuidado com a tendência a permitirem que alguém que possa magoá-los se aproxime deles. Por outro lado, não devem erguer um muro ao seu redor após terem sido traídos ou humilhados. Encontrar um equilíbrio entre abertura e segurança é um verdadeiro desafio.

Finalmente, os nascidos em 15 de janeiro devem tomar cuidado para não se entregarem demais aos prazeres sensuais, pelos quais têm um fraco. Às vezes, sua energia pode ser desviada para assuntos que não merecem sua consideração. Devem também equilibrar o desejo de controlar o ambiente e permanecerem abertos ao crescimento e à mudança, característicos da evolução.

Números e planetas
Os nascidos no décimo quinto dia do mês são regidos pelo número 6 (1 + 5 = 6) e pelo planeta Vênus. Os regidos pelo número 6 tendem a ser carismáticos e, às vezes, até mesmo inspiram idolatria nos outros. No entanto, para os nascidos nesse dia a influência conjunta de Vênus e Saturno (regente de Capricórnio) concede uma natureza muito complexa e emocional, que pode significar problemas e frustrações nos relacionamentos. Com frequência, conflitos arraigados com um pai têm de ser trabalhados antes que seja possível um crescimento posterior.

Tarô
A décima quinta carta dos Arcanos Mariores, O Diabo, indica um temor/desejo dinâmico em relação à atração sexual, irracionalidade e paixão. O Diabo nos mantém escravos através de nossa necessidade de segurança e dinheiro; ele representa nossa natureza básica buscando
segurança; ele nos controla através de diferenças irreconciliáveis existentes em nosso lado masculino/feminino. O lado positivo desta carta é a atração sexual e a expressão de desejos passionais. Mas a carta lembra-nos que, embora estejamos ligados ao nosso corpo, nosso espírito é livre para voar. Os nascidos em 15 de janeiro devem evitar tornar os outros excessivamente dependentes deles ou usarem seu poder coercitivo de forma anti-ética.

Saúde
Os nascidos em 15 de janeiro, em geral, têm problemas que envolvem os aspectos mais sensíveis de sua natureza. Por exemplo, podem ser periodicamente superindulgentes ou, ao contrário, avessos à comida e ao sexo, o que é sintomático de sua ambivalência emocional subjacente. Tais problemas em geral resultam de experiências infantis negativas com um ou dois dos pais. Os nascidos em 15 de janeiro devem tomar cuidado para não usarem as emoções como armas ou dispositivos de manipulação, sobretudo se e quando são crianças. Aprender a cozinhar bem é importante para os nascidos em 15 de janeiro pois isso os torna mais propensos a desenvolver uma atitude saudável para com a alimentação. Esportes e exercícios de todos os tipos são recomentados, sobretudo os praticados em equipe que os ensinem habilidades sociais e físicas.

Conselho
É inevitável que desempenhe seu pape heróico. Certifique-se, porém, de que ele esteja a serviço de objetivos dignos. Seja arguto, mas também aberto a mudanças. Descubro o que funciona para você. Aprenda a esperar e quando agir - encontre o lugar e o momento certo para todas as coisas.

Meditação
Nas grandes batalhas da vida, as armas mais poderosas são, com frequência, a sabedoria e a compreensão

Pontos fortes
Idealista, bon vivant, heróico

Pontos fracos
Indulgente, inseguro, idólatra

25.8.11

Sol na casa 1, lua na casa 12

25/08 (hoje) às 7h51 a 27/08 às 7h05

A Lua está quase nova no céu, transitando pela Casa 12, enquanto que o Sol se encontra na Casa 1, entre os dias 25/08 (hoje) às 7h51 e 27/08 às 7h05. A sua sensibilidade estará também mais ativa, de modo que neste período há o risco de você ter reações um pouco exageradas a determinadas coisas que em outros momentos sequer lhe incomodariam. Lembre-se de refletir neste momento, e procurar observar se você não está tendo reações um pouco exageradas. É possível, inclusive, que você venha a ficar lembrando de coisas não muito agradáveis... Que tal ter uma postura prática em relação a tais questões, Fernanda? Sol e Lua se reencontrarão em poucos dias, na fase da Lua Nova, que representa um momento de renascimento geral. Procure, nestes dias, meditar e refletir a respeito das coisas que você modificaria em si.

9.8.11

CAPRICÓRNIO (de 22 de dezembro a 20 de janeiro)

A capricorniana é capricornial
Como a cabra de João Cabral.
Eu amo a mulher de capricórnio
Porque ela nunca lhe põe os próprios.
A caprina é tão ciumenta
Que até o ciúmes ela inventa.
Mulher fiel está aí: é cabra
Só que com muito abracadabra.
Suas flores: a papoula e o cânhamo
De onde vem o ópio e a maconha
Ela é uma curtição medonha
Por isso nos capricorniamos.

Vinícius de Moraes

8.8.11

Querido

Querido,
é muito difícil dizer isso, mas já não consigo mais suportar. Todas as vezes que tentei uma reconciliação (com quem?), os esforços que empreendi não deram frutos à altura do meu sofrer. Lamento.
Quero que saiba, desde o início, que a culpa não foi sua; talvez eu ainda insista em lembrá-lo disso no decorrer dessas linhas. O famoso clichê "não é você, sou eu" se aplica a mim, embora de outra forma.
Às vezes o dia está lindo lá fora e me entristece reconhecer que era pra eu estar feliz e não consigo. Minha carreira, minha família, meus amigos, minha casa, nós dois: tudo esteve praticamente em plena conformidade todo o tempo, porém eu não era capaz de estar satisfeita. O mundo era pesado, me apertava, meu peito já não tinha forças pra encher meus pulmões de ar e respirar era apenas um suspiro que sustentava a pouca vida que dormia no meu corpo.
Não foi sua culpa, não foi minha, não foi de ninguém. Minha apatia, minha falta de força de vontade, minha tristeza sem motivo, minha falta de gosto pela vida: nada disso é culpa de ninguém.
O que me prendia no esforço de lutar por viver era você, eram meus amigos, minha família... No entanto, você mudou e cada vez que você agia de forma diferente comigo, meu coração se encolhia mais; à medida que meus amigos se afastavam pelas circunstâncias compulsórias que a vida impõe, ele encolhia mais ainda; quando minha família despejava injustamente problemas sobre mim, ele quase desaparecia.
Você não teve culpa nisso, querido. O peso foi demais, o fardo foi demais. Eu amo você, amo as pessoas que fizeram parte da minha vida, amo cada hobby meu, mas a dor é grande demais para que eu suportasse. Não consegui.
Desculpa pela bagunça com as caixas e não se esqueça de repor os seus remédios.
Sempre vou te amar.

29.7.11

Açúcar

O doce dos mais doces me vem à boca; ela a adocica e meus lábios se curvam para cima. Ainda que me atestassem haver sonhos mais doces, estaria convicta de que não há açúcar que faça isso. São seus olhos ou seu sorriso? Nenhum dote da confeitaria me traria nada mais suave e delicioso, sutil e alucinante. Acolhida no seu abraço, quente como coberta por calda de chocolate, faço suposições e elaboro teses... Que de nada adiantem - pouco importa! -; a mim basta o mistério que todo o sonho que essa doçura me traz...

27.7.11

Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

21.7.11

Look at the stars
Look how they shine for you...

9.7.11

-

As férias estão rastejando tão devagar.. Por que tanta demora!?

27.6.11

Nunca o saberão

Quem sou, nunca saberão.
Na minha mente, quantos sonhos ganham formas,
Contemplam cheiros e sabores e arrepios...
Tão novos, tão únicos, tão especiais - e em vão.
Tão breve surgem, tão breve desconhecidos morrerão.

Meus olhos são calmos, mas inquietos;
Sedentos por cada experiência estrangeira
(E a eles tudo é estrangeiro que não a escuridão),
Devoram e julgam, absorvem e interpretam.
A mente reconsidera, absorta em pensamentos infinitos
E infinitamente incontroláveis.
Eles somem e morrem e quem dirá que existiram?
O atestado são outros pensamentos que quem dirá que existiram?
O que vivo, o que penso, nunca saberão.

Ainda que a alguma alma atormente a curiosidade
E ela me queira decifrar o jeito,
Deixo-lhe dizeres sinceros:
Não posso falar-lhe tudo se nem eu sei o que penso.
Entre as palavras que digo sinceramente,
Há infinitas ideias que eu silencio sinceramente.
Pensamentos complexos, devaneios,
Explosões de consciência,
E tantas outras coisas que não se moldam às formas das palavras.
Por mais que queira, por mais que se desafie,
O que penso, nunca saberá.
O que penso, nunca saberão.

O frio que me causa a fascinação pela metafísica,
Companheira solitária e inata do homem,
Companheira de meus dias solitários e melancólicos,
É nada além de fruto do que penso
E não faz parte de lugar nenhum além do meu cérebro,
E de todo cérebro humano que angustia o sentido de tudo,
Que concebe essas ideias sem motivo, sem razão
E agoniza.
Minha cabeça repousa sobre o travesseiro,
Mas a metafísica não a deixa dormir,
Angustia-a,
Devora-a,
Consome-a toda obscenamente.
E dela e de tudo o mais,
O que penso, nunca saberão.

Quando some o sentido e o existir das coisas se torna
O vão existir das coisas todas,
Os pulmões já são pequenos demais
Para o tanto de ar que lhes deveria adentrar
E respirar já não causa muito além de um suspiro pesado que expulsa o ar
Mais essa sensação cujo sentido de existir
Não faz sentido - mas angustia.
Só eu, contudo, sinto a força do peito para respirar -
Aos outros, respiro, embora nem tenham consciência de o saberem;
Aos outros, respirar, para mim, é só respirar.
O que penso e o que decorre dos meus pensamentos e do peso que dão ao ar, nunca saberão.

Que sou, se não o que penso?
Afinal, que saberão de mim se não sabem o que a todo instante penso?
Que saberão de mim se não sabem nada do que penso?
Palavras são pensadas, porcentagens pífias das ideias;
As outras se afogam umas nas outras, refugiam-se seguras no cérebro
E as palavras sopradas ao vento podem até ser lembradas,
Mas as ideias guardadas murcham e morrem e viram pó -
E dos meus pensamentos só eu saberei,
Dos meus pensamentos e das sensações minhas,
Consequência das minhas ideias,
Ideias secretas e anônimas,
Nunca saberão;
Quem sou, nunca saberão.

22.6.11

Desde esse momento, cada dia acrescentou mais poesia àquele sentimento.
"Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou
Só me arrependo de outrora não te ter amado"

Alberto Caeiro

17.6.11

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou
, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.
)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos, 15.01.1928

Nunca o saberão

Quem sou, nunca o saberão.
Na minha mente, quantos sonhos ganham formas,
Contemplam cheiros e sabores e arrepios...
Tão novos, tão únicos, tão especiais - e em vão.
Tão breve surgem, tão breve desconhecidos morrerão.

Meus olhos são calmos, mas inquietos;
Sedentos por cada experiência estrangeira
(E a eles tudo é estrangeiro que não a escuridão),
Devoram e julgam, absorvem e interpretam.
A mente reconsidera, absorta em pensamentos infinitos
E infinitamente incontroláveis.
Eles somem e morrem e quem dirá que existiram?
O atestado são outros pensamentos que quem dirá que existiram?
O que vivo, o que penso, nunca o saberão.

Ainda que a alguma alma atormente a curiosidade
E ela me queira decifrar o jeito,
Deixo-lhe dizeres sinceros:
Não posso falar-lhe tudo se nem eu sei o que penso.
Entre as palavras que digo sinceramente,
Há infinitas ideias que eu silencio sinceramente.
Pensamentos complexos, devaneios,
Explosões de consciência,
E tantas outras coisas que não se moldam às formas das palavras.
Por mais que queira, por mais que se desafie,
O que penso, nunca saberá.
O que penso, nunca saberão.

O frio que me causa a fascinação pela metafísica,
Companheira solitária e inata do homem,
Companheira de meus dias solitários e melancólicos,
É nada além de fruto do que penso
E não faz parte de lugar nenhum além do meu cérebro,
E de todo cérebro humano que angustia o sentido de tudo,
Que concebe essas ideias sem motivo, sem razão
E agoniza.
Minha cabeça repousa sobre o travesseiro,
Mas a metafísica não a deixa dormir,
angustia-a,
devora-a,
consome-a toda obscenamente.
E dela e de tudo o mais,
O que penso, nunca saberão.

Quando some o sentido e o existir das coisas se torna
O vão existir das coisas todas,
Os pulmões já são pequenos demais
Para o tanto de ar que lhes deveria adentrar
E respirar já não causa muito além de um suspiro pesado que expulsa o ar
Mais essa sensação cujo sentido de existir
Não faz sentido - mas angustia.
Só eu, contudo, sinto a força do peito para respirar -
Aos outros, respiro, embora nem tenham consciência de o saberem;
Aos outros, respirar, para mim, é só respirar.
O que penso e o que decorre dos meus pensamentos e do peso que dão ao ar, nunca saberão.

Que sou, se não o que penso?
Afinal, que saberão de mim se não sabem o que a todo instante penso?
Que saberão de mim se não sabem nada do que penso?
Palavras são pensadas, porcentagens pífias das ideias;
As outras se afogam umas nas outras, refugiam-se seguras no cérebro
E as palavras sopradas ao vento podem até ser lembradas,
Mas as ideias guardadas murcham e morrem e viram pó -
E dos meus pensamentos só eu saberei,
Dos meus pensamentos e das sensações minhas,
Consequência das minhas ideias,
Ideias secretas e anônimas,
Nunca saberão;
Quem sou, nunca o saberão.

16.6.11

O vento se confunde e rodopia,
leva as folhas do chão que giram,
giram como num redemoinho,
sem destino,
sem objetivo,
em círculos.

10.6.11

E a coisa mais linda que você já me disse
É nada além de tudo o que você já me disse

28.5.11

Só quem puder obter estupidez ou loucura pode ser feliz. (Bernardo Soares)

26.5.11

O vento se confunde e rodopia,
leva as folhas do chão que giram,
giram como num redemoinho,
sem destino,
sem objetivo,
em círculos.

24.5.11

Um dia

Era uma vez um par de olhos.

Era uma vez um sorriso.

Um dia o par de olhos tropeçou no sorriso.

O par de olhos se debruçou no sorriso...

O par de olhos amou o sorriso.

Um dia o sorriso foi seu.

Era uma vez um outro sorriso.

20.5.11

Mas Eu

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.

Álvaro de Campos

17.5.11

Relacionamento

Arnaldo Jabor

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa: "- Ah, terminei o namoro... - Nossa, estavam juntos há tanto tempo... - Cinco anos... Que pena... Acabou... - É... Não deu certo". Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro? E não temos essa coisa completa. Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível. Tudo junto, não vamos encontrar. Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele. Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona... Acho que o beijo é importante... E se o beijo bate... Se joga... Se não bate... Mais um Martini, por favor... E vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer. Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... Ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão? O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo. E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar... Enfim... Quem disse que ser adulto é fácil?

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(Fernando Pessoa)

16.5.11

15.5.11

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Álvaro de Campos, 15.01.1928)

O nada

A expectativa sobre o que não foi -
E que nunca mais vai ser,
Não nesta hora, não neste tempo
(E quem garante que jamais será?).

É o cheiro,
é o beijo,
o abraço,
o sorriso,
a voz,
mais nada.

Só isso,
E isso já é nada.
Estar feliz me faz triste. Toda a controvérsia que há na minha indiferença magoa porque sei que, ainda que não de imediato, ainda que talvez não por tanto tempo, sentirei invertidos os sentimentos.

121

A indiferença ao saber;
Mas a dor de te saber ali,
Do outro lado,
Ofegante, descrente,
Com medo.

Ah, o medo...
Não posso mudá-lo
Se tem razão.

11.5.11

unvorstellbare Gefühle

Das Problem ist, dass ich dich ganz doll lieb habe. Eigentlich ist das nur ein Teil des Problemes - ein anderer Teil ist diese besorgniserregende Unsicherheit. Ich könnte dich mit Zärtlichkeit überraschen, aber das Risiko schreit nach mir. Vielleicht wäre es besser achtunglos zu handeln, obwohl mein Gehirn nicht an das Thema ,,Vorsicht'' zu arbeiten aufhalt. Meine schöne Wörter über Liebe wollen aber auch nicht auf mein Mund kommen - sie erzählen mir manchmal, dass sie selbst Angst haben. Wieso könnte ich gegen sie was machen? Plötzlich denke ich daran, gegen sie zu kriegen und sie aussprechen aber während ich nach Kräfte suche, entmutigt mich die Unsicherheit, deshalb laufen die Ideen weg. Warum sollte ich die Realität befürchtigen? Ist meine Realität nur eine Fantasie meiner Vorstellung? Es ist zu dunkel wenn ich barfuß wandere, die Lichte sind mir zu schwach um das Boden sehen zu können. ,,Vorsicht, dass kann Verletztungen verursachen''... Egal ob es mir gefällt, ob es weh tut: der Punkt ist, dass ich jetzt viel Zeit bräuchte, ihn auf mein Herz aufzunehmen. Seit ich angefangen habe, diesen Text zu schreiben, hört mein Gewissen nicht mir an den Ohren zu wispern: ,,gib auf, es ist schon unmöglich zurück zu gehen''. (Als ob ich ihn verlaßen wollte!) Es müsste nicht Energie ausgegeben haben: das weiß ich schon lange her und die Idee, dass ich nicht gegen diese Liebe machen kann ist genau so angenehmend wie an seinen Armen zu sein...

8.5.11

É pesado

É pesado demais. O sofrimento se impõe inabalável e me prostro diante da sua presença tão imponente. Toda a realidade com que sonho se mistura à realidade ao meu redor formando a realidade em que vivo e, ainda que me perca feliz no meu abrigo falacioso de palha, preocupo-me. Lá me fiz feliz. Fiz-me feliz, mas receosa - receosa do vento mais sereno fazer toda a palha vir ao chão. Com você ali, eu cabia feliz e segura ora entre meus braços, ora entre seus braços, ora entre nossos braços (esses últimos os melhores). Hoje, enquanto a água me escorre os cabelos, que caem e deslizam pelos meus ombros, tento me conformar que, se os pilares do meu refúgio não são seguros, é hora de procurar um novo abrigo. Não importa o quanto de água tenha percorrido minha pele, não estarei satisfeita com a realidade. Quando mergulho nos seus olhos e estou empanturrada de alegria, tão doce, tão pura, preciso de você e da realidade em que nos inventei. Deixar seus olhos não é uma hipótese para mim, este ser confuso que já mal sabe o que escreve. Intrigo-me com essa ideia: tê-lo, portanto, é uma certeza? Longe disso. Uns diriam que aí está a magia: na incerteza. Para mim, não. Aí está a dor irreparável, a de saber que o que poderia ter sido transformaria por completo a história (fosse isso a continuação do presente, fosse isso um outro rumo). O medo é, ironicamente, um sentimento corajoso. Ousa se revelar nas horas mais impróprias, em que estou hipnotizada por um presente tão delicioso. Ele destrói tudo. Quer me convencer de que é arriscado deixar os capítulos seguirem, de que cada linha a mais é um risco maior. Acendem na minha mente palavras como "dor" e "sofrimento" e o clique da lâmpada quer me fazer enxergar que estar feliz no escuro é aceitar estar cega. Não estou. Sei bem do que se trata: estou apaixonada por essa magia. Encho meu texto de dois pontos e travessões porque ele não é nada além de descrições da razão e devaneios dos sentimentos. Sei bem do que se trata tudo... É medo de que ser feliz hoje me torne infeliz mais tarde. Melhor não sentir do que angustiar uma dor, do que nutrir um sofrimento doentio; não quero deixar minha alma adoecer. Sei, racionalmente, que seus olhos são só mais um par de olhos e quero me deixar convencer de que isso é verdade, mas minha respiração suave reflete um interior feliz ao sentir seus cílios na minha bochecha e já estou certa de que seus olhos são o que já houve de mais encantador no mundo. As luzes se apagam, a casa é tão segura, seu sorriso reúne toda a felicidade que eu posso viver e eu a entorno na minha boca depois de beijá-lo até não conseguir mais. Completo encanto. Posso dar voz à consciência - olhe o quão arriscado isso é! - e então tatear as paredes, acender a luz - clic - e buscar o chão ao meu redor, ver a fragilidade das paredes de palha, procurar segurança (quem sabe não me arriscar mais aos seus beijos...); contudo já não sei se é o que eu quero... Amarei nosso abrigo até a tempestade; e, ainda, quem escreveria as linhas se seguiriam à magia que me sopra o ar que respiro quando estou com você, as linhas que me apaixonariam, se eu desistisse desse ar, se eu desistisse delas? Devo desistir, mas não posso, não consigo... Sensações, inseguranças, ideias, hipóteses, sentimentos, temores pesam dentro de mim. É pesado demais.
Todas essas linhas talvez não façam o menor sentido: o fato é que dói.

30.4.11

Preguiça de viver

Vivo, sobrevivo, me pego respirando e não é nada disso. Não foi com isso que eu sonhei... Também não foi com carruagens e um palácio, não foi com medalhas nem com troféus, não foi com Natais com a ceia farta, tampouco com contratos e promoções, nada disso. Não sonhei. Viver dá trabalho demais, sonhar suga as energias trocadas por muito suor na colheita diária (e ora infernal) da sobrevivência. Me deixa, me larga aqui quieta, quero descansar, quero a inércia em cada canto de mim. O dia está nublado, esqueci as janelas abertas, o vento me incomoda. Deixa o vento, deixa os arrepios. Começa a chover, sinto água, pingos, gotas, moléculas, definições da existência de algo - da água, de pingos, de gotas, da chuva - despencarem sobre mim; me molham, me encharcam, me congelam e eu ainda quero estar lá e nada faz sentido. Não é que eu queira estar lá: não quero não estar lá. Quero estar em lugar nenhum. Transformo o tapete no meu lugar nenhum, me encolho, tento desaparecer, fim. Decreto pausa à existência e o cérebro entra em standby e logo se desliga. Por uns instantes sou nada, quero ser nada. As gotas vão e vêm e existem tanto quanto eu, vivem tanto quanto eu. A água evapora, formam-se nuvens, desabam gotas, tudo recomeça e nada faz sentido. Onde se esconde a felicidade? A praticidade de me esticar no chão e não viver acalenta meus desejos mais profundos de querer ser nada. Exaurida da busca pela felicidade, essa utopia maldita sonhada há milênios, entrego-me às obrigações básicas da sobrevivência (que vez ou outra acredito ser vida). Quero ofertas
de felicidade me batendo à porta e estampando encartes promocionais a juros zero de forma que esticar a mão me permita agarrá-la e dominá-la definitivamente - se ela existir... Viver - utopia segunda, devaneio da fantasiosa felicidade - sem tê-la não me é uma ideia concebível. Ela tem de existir, decreto! Gosto de estar ali, com tantos pensamentos vagando num espaço ainda maior de tempo, numa velocidade que tende a zero à medida que o conformismo com a realidade falaciosa se aproxima. Gosto? Se gosto, me agrado; se me agrado, estou contente; se estou contente, posso estar alegre; se estou alegre, posso por um instante ser feliz? Abro os olhos molhados, olho através da janela a chuva caindo lá fora, indiferente aos meus sentimentos, volto a não compreender nada e prefiro me ausentar da vida afogada na ignorância sobre ela. Estou ali, o sangue vaga pelos meus tecidos, impulsos nervosos me percorrem o corpo, pensamentos infinitos se chocam, se unem, se reprimem, se manifestam, respiro e ainda estou viva. Venta, faz frio, novamente me arrepio. Enxergo a escuridão sob a minhas pálpebras e não sinto mais nada. A chuva ainda castiga as ruas e os pingos ainda batem sobre as minhas costas quando o telefone toca. Faço menção de andar até ele, levanto meu tronco para esticar a mão e alcançá-lo. Passo a mão sobre os olhos que então veem turvo, leio seu nome, meus lábios criam um sorriso e, finalmente, vivo feliz.

Lindinho

Estou com sono, quero dormir, mas já não posso mais adiar uma confissão: me lembrar de você me faz feliz. Imersos na rotina citamos a felicidade e pensamos nela sem, no entanto, saboreá-la. Você, contudo, me dá esse prazer ao correr pelas minhas lembranças sorrindo enquanto dorme seu sono inquieto - e é tão inquieto! Você se vira para a esquerda, para a direita, procura me tocar, dobra e estica os braços, puxa a coberta e a abandona, seu corpo ainda hesita sobre se mexer mais uma vez... É um sono inquieto, porém não perturbador, mas apaixonante. Como uma criança cheia de energia que mal para quieta, você se agita incessantemente - e vez ou outra me beija e, ah, você não imagina o efeito do seu sorriso sobre mim! Como tê-lo ao meu lado é feliz, como seu abraço é reconfortante! Nesses lapsos de alegria, tão pura, tão ingênua, vejo como você importa, o quanto a sua doçura é encantadora... Contenho ímpetos de procurá-lo e dizer "gosto tanto de você!" me perguntando se isso o traria um décimo da satisfação que eu sinto só ao ler seu nome. Sou desconfiada e insegura, mas, juro, não é por mal! É que eu duvido que eu possa te fazer feliz ao menos um pouquinho do que você já me faz... Doce é a embriaguez da felicidade! Já não é mais uma opção pra mim não gostar de você - eu já gosto muito dessa embriaguez...

26.4.11

il fait chaud

Você me abraça com o corpo quente, um leve arrepio toma conta da minha perna; ele também alcança meu pescoço, que se deixa deitar no seu ombro - faz calor. Grudo meus olhos nos seus indecentemente, com uma fome voraz: é mais que necessário, preciso devorá-lo para sobreviver. Tento cobrir suas costas inteiras com as minhas mãos, aperto-o contra mim num abraço desesperado por engoli-lo; volto meus olhos em chamas novamente para os seus, desconfio de sua respiração estar levemente ofegante, embargo-nos num beijo aflito por nos incorporar um ao outro. Minhas mãos deslizam pelo seu corpo quando, entre abraços mais fortes do que eu supunha poder dar, beijo sua boca, seu rosto, seu pescoço, agarro-o e me deixo ser inteiramente enfeitiçada. Meus olhos cruzam com os seus ainda mais uma vez e, com os corpos exauridos da urgência de ter um ao outro, você me agracia com o sorriso mais doce de todos - um brinde à felicidade.

14.4.11

Insanidade

Sou muitas, sou todas, sou algumas, sou nenhuma.
Uma infinidade de eus são bombeados por esse meu coração -
inquieto, pobre dele!
Tantas coisas habitam este espaço tão limitado do meu corpo,
tantas coisas povoam o universo das minhas ideias...
Sou arte e todo ser humano o é
na destreza dos seus reflexos mais humanos.
Somos a arte da vida, a arte da existência.
Carimbo, nos meus diferentes arrepios,
diferentes situações, histórias, emoções, temores,
e logo alago sem pudor meus olhos em lágrimas
e logo alago sem pudor meu rosto num sorriso.
O céu negro vira azul, vira roxo, lilás, rosa;
os raios do Sol caminham pelo meu quarto;
de uma vez por todas tenho certeza: magia!
Espalham-se em mim as sensações mais escandalosas,
vou dos pensamentos mais diversos a alucinações da razão.
Meu corpo fica dormente e, por um instante,
vejo-me presa a um formigamento descontrolado que,
por um instante, pergunto-me não serem mesmo formigas.
Sigo à risca a insensatez de todos os poetas:
deixo sutis vestígios de cada um dos meus infinitos eus e,
entre versos desafinados,
assino minha loucura,
delineio o cortorno de uma alma,
alma encharcada de amor e de uma urgência insana,
urgência insana de testar todas as possibilidades da vida,
vida desesperada para ser vivida.
Os peixinhos beliscam meus pés...
Como é lindo.

É talvez o último dia da minha vida.

É talvez o último dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
(Alberto Caeiro)

Pássaro, um pássaro

A ave presa.
O céu entre as grades prateadas,
Que não brilham -
Não como a bola amarela pendurada no azul.
O limite da gaiola.
O ilimite de lá fora.
Os olhos devoram o novo,
Aquele que às asas caberia.
Alaga-se o coração
De uma tal coisa, um delírio!
Ora, que ideia, pássaro!
Olho a vida pacata aqui,
É pacata, é segura!
Mas... Isso é vida?
É isso a vida?
E a vida lá fora? Sou pássaro!

Ora, que ideia, pássaro!
Você é só um pássaro.

10.4.11

Madrugada

Ela forçava as pálpebras insistentes, sentia desconforto, virou para o outro lado, a luz vermelha do relógio a incomodava. Saiu da cama, reagitou o corpo - que estupidez para alguém com insônia! - e tampou o relógio com uma blusa. Que horas são? Puxou a blusa; eram 2:52h e ela levanta às 7:00h. Droga, menos de oito horas de sono! Como se o problema fosse o sono... Deitou, cobriu-se, descobriu-se, virou para um lado, deitou de bruços, apoiou a perna sobre um travesseiro, nada. A inquietude física era reflexo de um mente completamente perturbada pela insegurança. O quanto deveria confiar? O quanto deveria se deixar levar? Deitou de barriga para cima, olhou para o teto, deparou-se inúmeras vezes com as mesmas indagações e nenhuma resposta. Fechou os olhos, tentando sumir daquelas sombras escuras. Ligou o ar condicionado, deitou. Era ingenuidade demais achar que, com toda aquela agitação, dormiria logo; mais ingênuo ainda era se deixar levar assim... Gostar de alguém, ainda que pouco, é perigoso. O relógio apitou, 4:00h. As horas corriam, as dúvidas se multiplicavam e ela o veria mais tarde. Ela o veria, passariam a tarde juntos, conversariam, se beijariam, contariam históricas, relembrariam um passado de descobertas talvez próximo demais para aquele estado de relacionamento. O pé dela estava um gelo. Cobriu-o, agarrou um bichinho de pelúcia. O corpo queria movimento, o sono não era um opção. Deixá-lo seria uma opção? Ele ficaria desamparado? Ela, talvez? Adorava seus beijos, às vezes se lembrava do seu calor ao abraçá-la e lhe escapava um sorriso, vez ou outra se via feliz ao pensar nele... Espera, mas isso não é amor! Droga, precisava dormir, esticou o corpo, ajeitou-se sob a coberta, relaxou o rosto. O quanto ela gostava dele? Ele significava muito para ela; à medida que seu dia corria, mais crescia uma vontadezinha de falar com ele, de saber do seu dia, de contar as bobagens rotineiras de mais um dia. Significava muito por quê? Maldito ar condicionado, forte demais - ela aumentou a temperatura. Talvez uma entrega inicial excessiva tenha trazido responsabilidades muito pesadas para um jovem relacionamento de jovens. Talvez isso tenha sido o motivo de ele significar tanto, talvez ele signifique muito compulsoriamnte, talvez ela imponha isso inconscientemente... Ela deitou de bruços, botou uma almofada sob a barriga, esticou os braços. O que fazer? Largar ao vento? Deixar-se entregar? Forçar de si o amor? Deixar o carinho dar - ou não - lugar ao amor? Um sentimento talvez breve, talvez duradouro, talvez real, talvez intenso, talvez feliz, talvez decepcionante, talvez platônico, talvez animador, talvez catastrófico, talvez recíproco, talvez unilateral, talvez, talvez, talvez..
Se com ele os dias eram muito mais agradáveis e se a vontade de enchê-lo de beijos não passava, é porque aquilo a fazia bem e ela deveria deixar tudo continuar assim. Então o ar ficou leve, suas pálpebras começaram a pesar, ela ajeitou o rosto sob uma mão, sua respiração ficou suave. Ainda sem saber que seria feliz na companhia dele aquele dia, lembrou-se do seu abraço, do seu sorriso, do seu cheiro e decidiu que no dia seguinte ela iria, mais do que simplesmente vê-lo, querer vê-lo, e então, com um discreto sorriso pregado aos lábios, adormeceu.

4.4.11

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...

É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.

Vinícius de Moraes

Não deixe o amor passar

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

Carlos Drummond de Andrade

É diferente

Não é que eu não gostasse do seu sorriso, não, não, nada disso. Quando eu o admirava, ele podia ser um sorriso lindo, mas o que era aquele sorriso? Era um sorriso - tão lindo! -, mas só um sorriso lindo. Você podia estar sorrindo para o universo inteiro, mas certamente não pra mim. Nem por isso eu deixava de ficar interessada e até hipnotizada de vez em quando...
Hoje, às vezes, seus cílios se beijam, se separam, você sussurra palavras no meio desse breve despertar e volta a dormir enquanto eu me perco na doçura do seu piscar e me palpita o coração uma coisa que borbulha, que me embriaga e me deixa fora de mim... E eu me aconchego em você, sinto sua pele quente, você me aperta para si, entreabre os olhos e esboça um sorriso pra mim, o mais lindo de todos... Seu sorriso me convida a sorrir junto e fico impotente, com um sorriso preso ao rosto enquanto meu peito está cheio de uma felicidade paradoxal, ora tão suave, ora tão intensa...
Infinitos sorrisos para todo o universo, ainda que durassem a eternidade, não valeriam um instante daquele sorriso para mim.

3.4.11

Escorre aos litros, o amor.

31.3.11

A vida não nos deixa passar impunes e vai nos carregando enquanto dormirmos distraídos sem ver a irreversibilidade da linha de sentido único que tudo destrói - o tempo.

28.3.11

C'est mort

Ah, Gabriela, tão doces sonhos! Doces como a menina que passeava pelas ruas com sua saia leve, suave com seu andar de quem toca o chão com a ponta dos pés... Tão doce! Gabriela trazia tanta paz com o cheiro de incenso que às vezes ficava pregado às suas roupas e nos olhos caídos que lhe traçavam sua fisionomia serena... "Talvez ela seja feliz", pensou consigo o homem de terno do outro lado da rua. Nossa imaginação adora se apropriar dos cenários e das personagens sobre quem pouco sabemos e a quem adoramos atribuir fantasias... Ah, o homem não saberia que aquela era a aparência constante de Gabriela, que pouco mudava, fossem quais fossem os ares. A tarde cedeu lugar à noite, os postes se acenderam, as luzes meio amareladas começaram a iluminar as ruas. Ela ainda caminhava - ah, tão doce! Não era só o homem de terno, Hugo também achava isso, por isso batia incessantemente a colherzinha na xícara de café - que já era sua segunda naquele fim de tarde. Como odiava usar sapatos, como camisas sociais o incomodavam! O clima do pub era quente e agradável, um jazz tocava ao fundo fugido do saxofone do músico lá do fundo. Para ele, a noite pediria brownies, talvez muffins ou sorvetes, quem sabe muffins e sorvetes juntos. Pediria; não pedia. O clima era agradável para todos os casais e grupos de amigos que se acomodavam por aqueles sofás, circulados por um calor aconchegante, contraste perfeito ao vento congelante por trás das janelas que davam para rua. Hugo sentia calor demais, suava um pouco, já tinha tirado o paletó quando pediu uma dose de uísque. Mal olhou para o garçom, virou a dose garganta abaixo, os olhos se encheram d'água, ele respirou fundo, se afundou no sofá. Era um homem muito lindo, não nos poupemos dos detalhes: cabelos pretos espetados, barba rala, olhar desconfiado, sedutor - para algumas a roupa social pode até contar como mais um atrativo para ele. Não era nada daquilo o que a moça da saia florida procurava nele hoje, conhecia bem aquela beleza toda e, embora a admirasse, buscava muito mais. Um sininho fez barulho, Hugo correu os olhos nervosos para a porta e lá estava ela. Por que tão tranquila? Será que ela também não sentia o ar desesperadamente pesado sobre si? Ela olhou para os lados enquanto desfazia distraída sua trança, procurando Hugo ao soltar seu fios cor de ouro. Os olhos de paz encontraram os de angústia; ela sorriu; ele forçou um sorriso; ela caminhou em sua direção. "Pronto, vamos fingir que está tudo bem de novo, que não falta nada quando estamos juntos conversando, nos beijando ou de mãos dadas" - ele teve um sobressalto. Ela se deixou afundar no sofá ao seu lado, pegou sua mão e a beijou. Ele virou o rosto, deu-lhe um beijinho. Conversaram - ele contou do dia tenso, narrou minuciosamente suas dezenas de afazeres, reclamou da secretária enrolada que trazia mais problemas do que soluções; ela contou das plantas que ficaram com as folhas secas porque ela se esqueceu de regá-las e falou da sapatilha roxa linda que comprou numa loja ali perto. Ela pediu um muffin e um sorvete, ele pediu um café. A conversa fluía. A chuva, o cachorro que arranhou o sofá - mas tudo bem, ela já queria estofá-lo -, o cafezinho gostoso, a camisa amarrotada. Gabriela sentia a irreversibilidade da situação: os toques não eram mais arrepiantes, os sussuros já não eram mais tão sedutores e, ela sabia tão bem quanto ele, seus olhos negros clamavam por socorro. Faltava a calmaria do amor, a chama que não incendeia florestas, mas que arde quieta e controlada nas lareiras tão acolhedoras. As mãos que se acariciavam eram frias num ambiente inóspito para corações tão gélidos. Ele sentia bem o peso de sustentar aquilo, no entanto não compreendia o que havia de errado naqueles olhos caramelos ou naquela voz ou nas palavras que ela carregava... Ele decidiu fumar um cigarro, procurou seu isqueiro, catou por entre os bolsos, pela pasta. Ela meteu a mão na bolsa, tateou besteiras quaisquer e tirou seu isqueiro. Inclinou-se para acender o cigarro de Hugo; não ligava. Tic, tic, tic, tic, tic e o isqueiro não se acendia. Ali foi selado o fim; ainda saíram juntos, ele foi para a casa dela, fizeram amor, se despediram - e os olhos caídos de Gabriela, diria o homem de terno do outro lado daquela rua, por um segundo pareceram desabados -, mas o isqueiro não pôde trazer nenhum vestígio de chama, nenhuma faísca sequer daquele amor, daquelas cinzas que jazeriam tranquilas cheirando a incenso e a café.

A impotência (e uma pitada de egoísmo)

1/7.000.000.000: esse número sou eu, esse número é você. E eu me pergunto: o que nós somos? Nada, insignificantemente nada, só mais um ou outro dos bilhões de seres humanos que vagam pela Terra. As guerras eclodem e cessam, os cientistas escrevem incansáveis artigos, os campeonatos de futebol começam e acabam num ciclo infinito e nós somos nada. Eu, escrevendo meu texto, você, do outro lado, lendo, e ainda sim somos nada. Não é por poder enxergar ou tocar ou rir ou sentir que somos algo - somos nada. Júpiter é dezenas de vezes maior do que a Terra e nós somos milhões de vezes menores do que a Terra e me envergonha essa nossa insignificância. Morreu um casal num acidente de carro e não são Carlos ou Luisa, mas sim homem de 35 anos embriagado e esposa grávida. Morreram 2, morreu o número dois. Afinal de contas, existir não necessariamente significa ser, muito menos ser algo. Por isso vivemos o microcosmo - então somos algo. As famílias choram a doença dos avós e amargam a rebeldia dos filhos - então avós e netos deixam de ser nada e são algo. Mas até onde? Até onde um problema vai me importar de verdade ou até onde as minhas angústias - estúpidas angústias de uma em sete bilhões de pessoas - vão interessar a você ou ousar tomar sua atenção? Até onde eu importarei para você, aliás, quando importarei para o mundo? Até onde deixarei você importar para mim, você, mais um entre sete bilhões! Até onde aceitarei o mundo ignorar a você, ignorar a mim, ignorar nossas conversas, nossas brigas, nossos beijos, o que acontece entre nós? Como aguentar ver o mundo ignorar o que acontece comigo e com você, que vivemos nesse mesmo mundo? Ignorando as manchetes de jornal, posso ouvir a discussão à mesa de jantar e perceber que, voltando a esse microcosmo, nesse meu mundo que duas dúzias de parede demarcam, posso ser algo também, como será Luisa no seu velório às duas da tarde (já esquecida décadas depois devorada por fungos). Ponho-me a escrever, a cantar, a sacudir as cordas do violão buscando alguma melodia, a pensar, a tentar criar, inovar, inventar, nascer, crescer, viver, rir, descobrir, permitir - a tentar ser algo. Mas está muito quente e abro a janela, abro a janela e vejo centenas de luzes nos prédios e nos carros e no Corcovado e me dou conta: sou nada, você é nada e temos de nos conformar com essa insignificância compulsória e onipresente da vida. (Por acidente digitei "inconformar", mas tive de me corrigir; se inconformar com fatos em relação aos quais somos impotentes é mais do que perda de tempo, é romantismo insensato de um poeta mais do que insensato, burro).

A impotência de viver

Desço a passarela normalmente apressada - horários não são o meu forte. Talvez eu não corresse por querer chegar na hora, mas para tentar fugir daquela realidade. O ônibus já ia saindo, fiz sinal - motorista, motorista, para, por favor... Ele parou, obrigada, bom dia, passei pela trocadora sorridente e me sentei querendo arrancar aquele sorriso do rosto dela. Ela ficaria ali, pendurada naquela maldita cadeira horas e horas daquele dia, pegaria o ônibus lotado, enfrentaria a exaustão para ganhar um salário mínimo, dois, talvez. Isso não pode ser normal. Larguei minha mochila do meu lado e pus os olhos na janela. Não queria voltar e passar pela entrada do metrô de novo, sentir a maior impotência possível. O menino encostado à parede, sentado, largado, com os olhos entreabertos e a mão esticada, os dedos tão finos e fracos se forçando a ficar abertos contando com a mão se enchendo moedas. Eu abro a carteira e notas podem encher as minhas (robustas) mãos. Ainda que eu pudesse tirá-lo dali e mudar sua vida, através daquela janela eu via multiplicada aquela realidade, talvez não nas mesmas condições, mas ainda em situações desumanas. Os barracos se aglomeram e preenchem todo o espaço da visão que não é ocupado pelo céu, e o dia ensolarado seria o mesmo que um dia de tempestade. As tristezas da vida são tantas que a alma pode ser algo um tanto quanto melancólico. Não consegui ser feliz naquele dia, nada no meu mundo - nesse mundo minúsculo em que eu vivo - poderia mudar o âmago amargo do meu ser. Os dedos finos do menino são só mais alguns dos milhões, bilhões de dedos magros de miseráveis que não podem dizer que vir ao mundo foi uma sorte. Como ser feliz se o mundo não o é também?

22.3.11

Lua

Olho para a infinidade de escuridão em que piscam todos aqueles pontinhos. Se nenhuma luz fosse acesa aqui na Terra, certamente seria o oceano de estrelas preso sobre as nossas cabeças o nosso aconchego de cada noite. Quando as nuvens me cedem uns minutos de paixão, esse é o meu aconchego pessoal. Meus olhos, como se fora do meu controle, não se cansam de procurar pelo brilho de cada estrela perdida na imensidão desse céu, uma mais distante do que a outra... Saber que umas talvez nem existam mais é um encanto, um devaneio dos olhos, a prova mais acessível dos limites físicos do universo - da nossa casa. O fascínio que as distâncias astronômicas e que os corpos gigantescos exercem é evidente na curiosidade vibrante dos olhos brilhantes - refletem do brilho do céu ou a emoção de um grande amor? E umas estrelas, unidas por linhas imaginárias, formam umas figuras, despertam a imaginação... Em algumas horas, umas sumirão, outras aparecerão; Vênus nos trará a graça de sua presença e irá surgir ali, pouco acima do horizonte, nos chamando a despertar para os céus. Antes disso, com a mente e o coração imersos na magia que guardam aquelas estrelas, chama minha atenção o coração dos terráqueos no azul. A Lua surge, amarela, baixa, tão apaixonante que penso no que fazer para alcançá-la. Ela reflete a luz do Sol que, caridoso, nos cede o deleite de aproveitar o céu noturno, e ela brinca de apaixonar os homens e sumir poucas horas depois, largando-os solitários e saudosos... Ela caminha pelo breu iluminando as nuvens que surgem ao seu redor e me convida a admirá-la. Então a Lua, como quem quer mergulhar na Terra, se revela alva, brilhante, estonteante. Meu coração para por um instante e decido que não quero mais nada além dela. Através das lentes observo aquela obra-prima da Natureza enquanto penso em desbravar o Mar da Tranquilidade... As horas vão passando e nós ficamos ali, confidenciando segredos, dando atenção às outras belezas que povoam o céu, nutrindo esse amor cego em mim. Ela se despede, desaparece pelos céus, me deixa desamparada. Vou me deitar com sua imagem colada à retina, com a ansiedade de quem conhece a paixão. Pobre dos meus namorados, dos meus amores terrestres... Nada amarei mais do que a Lua.
"Et c'est vrai tu m'as donné
Les plus beaux de mes jours
Et je te les rendais
Je t'ai confié sans pudeur
Les secrets de mon cœur
De chanson en chanson
Et mes rêves et mes je t'aime
Le meilleur de moi-même
Jusqu'au moindre frisson"

11.3.11

je ne suis plus tombée amoureuse, mais je ne peux pas oublier le passé!!!

7.3.11

A hora íntima

Quem pagará o enterro e as flores

Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


Vinicius de Moraes

Trevo

Chovem trevos e eu encho a mão deles; corro para alcançar mais e mais quando, já descrente de tamanha sorte, vejo minha felicidade vindo na minha direção, sorrindo tanto, tanto... De repente é uma tempestade de trevos que me afoga, minhas mãos mal se fecham de tantos trevinhos de quatro folhas que as preenchem. Enquanto isso, a felicidade me abraça como se nunca mais me pudesse soltar! Jogo meus trevos pro alto - de que importam? - seguro-a - ah, linda felicidade! -, encho-me dela até não poder mais!
(Embora não conte que vá perdê-la, guardo uma dúzia de trevos no bolso para possíveis imprevistos.)

3.3.11

Paradoxo

Minha vida é conter o paradoxo
Que me habita confusamente.
Desdenho da clareza das ideias
Quando mal sei cuidar de antíteses.

Tombando entre impossibilidades,
Vejo-me tão atraída por esse mundo
Que me reservam as inconstâncias da alma!

Vivo a claridade do breu pelo qual
Oscilam minhas falsas verdades.
Brumas desnudam minha fajuta realidade,
A névoa abraça as incertezas que vagam.

Um vulcão entra calmo em erupção
E a crueldade da destruição torna-se...
Algo como gosto ou prazer.

Embargam-me os olhos emoções impossíveis,
Um temor alegre, felicidade e tristeza compassivas;
Bebo sedenta o copo de vinho vazio
No qual mergulham minhas mágoas mortas.

Relampeja um amor nas minhas entrenhas,
O sangue ferve e congela ao mesmo tempo,
As dúvidas semeiam minhas células.

Entro em colapso existencial.

Eis que, quando já me cansam
Todas essas contradições de ser,
Tateio o intangível
E - plenamente como nunca - me descubro humana...

Sentir é próprio da alma

A areia preenche as curvas de um pé, logo do outro também. Os incontáveis grãos são sentidos, cada um, por aquela pele fria que se esquenta no contato com aquele chão quente e fofo. Logo esses grãos são deixados pra trás e outros afagam carinhosamente aqueles pés, também logo substituídos por mais outros, e aquela poligamia convém tanto para os pés quanto para os grãos. À medida que o caminhar deixa a areia quente para trás, surge o primeiro vestígio do mar - o solo úmido. Os pés repousam por um instante e sentem, acariciam, abraçam, tocam, descobrem indícios do frio em meio à infinidade de pedacinhos de areia. Poucos sentiriam a brisa que o pescoço sentia passeando por lá e outros poucos escutariam as palavras sussuradas pela água escondidas no quebrar das ondas. O pé esquerdo hesita sobre seguir, no entanto põe-se à frente do direito à espera da água. É em vão. Muito mais coragem é necessária para o primeiro e assustador contato com a água. Dar mais alguns passos requer uma força que o medo esconde... Abrir os olhos não traria a visão deste espetáculo amedrontador. Os dedos se escondem na mão que se fecha, a testa se franze. As sensações são tão vivas quanto o medo da frustração. A pele é especialmente sensível e os ouvidos parecem escutar até o que se fala do outro lado do oceano mas, mesmo assim, hoje falta algo. Uma bolinha de água desenha um fio pelo rosto - só pode ser uma lágrima - e, de repente, várias outras a seguem no desabar desesperado de todas as emoções que transbordam afoitas daqueles olhos. Os joelhos cedem e as mãos apoiam aquele sentar mais pesado do que todos aqueles grãos de areia que o seguram. Os ouvidos ficam surdos às ondas e o único som é o das vozes, que não param de falar uma por cima da outra.
Eis que faz-se silêncio. De súbito os pés sentem-se envolver por gelo - não, por água, por uma água incrivelmente gelada, docemente gelada, que acorda os pés à vida... E as mãos, assim como os pés, sentem grãos de areia, um, dois, cinco, doze, cem, mil... O cheiro de sal é forte, o sol já está mais fraco - teria uma nuvem o encoberto? - quando vem ao socorro daquelas emoções confusas a força. De repente os braços empurram aquele tronco inseguro, as pernas se cruzam no impulso do levantar. E a força é tamanha que, não fossem as sobrancelhas baixas, jamais teriam cogitado haver medo sob aquela pele sensível. Os pés caminham firmes enquanto as pernas se molham; as mãos não podem estar mais seguras enquanto a barriga e as costam se banham, trazendo um arrepio à nuca. A água já está pela altura do pescoço quando a mão leva à boca um pouco daquele mar e, para aquela língua tão especial, esse gosto deveria ter um nome especial, talvez algo próximo de "salgado", "exótico", "delicioso"... Ou nada que as palavras conhecessem também. Pouco importa: a vontade é de sentir por inteiro aquele mar. A cabeça se deixa afundar e os braços, inclinados para a frente, abrem-se e fecham-se, e o desejo é de devorar o mar, o oceano inteiro. Quando os pulmões já querem reconquistar o ar, os olhos já seriam completamente inúteis. Num balançar suave, todos os membros, numa harmonia incomparável, guiam-se de volta à terra. Quando cessa o contato com a água, as emoções não são pesadas, mas tão leves quanto hélio. A alma vive novamente e sente... Será que ela nunca havia sentido antes? Aquelas emoções fazem aquela alma enxergar como olhos nunca a tinham feito enxergar antes.

1.3.11

Ah, essa sensação

de quando o seu mundo vira um sorriso...

27.2.11

Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa, 12-1911

20.2.11

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18.2.11

Maybe you're gonna be the one

Cubro-lhe o cabelo de nós passando os dedos distraídos por aqueles fios que escorrem... Você me abraça - e uma coberta depois de horas na chuva não me reconfortaria por um dia o que seus braços me reconfortam num milésimo de segundo: uma vida. Não me canso de você, uso todas as minhas energias para me lembrar de que quem está do meu lado, pedindo para eu ficar, é você, ninguém mais. Quero beijar seus olhos, olhá-los mais um pouco, beijá-los de novo, colocar você entre os meus braços e puxá-lo para perto de mim, contornar suas costas com uma perna, passar a mão pela sua nuca, juntar meus pés aos seus, me encantar pela sua bochecha, deslizar a mão pela sua barba, desenhar sua sobrancelha, passar as unhas num ritmo suave pelas suas costas, olhar seus olhos, ver seu sorriso pelo canto do olho, me apaixonar, beijar sua boca. Os desejos voam pela minha mente e eu me perco, não sou veloz para acompanhar esse meu coração trêmulo. Ouço sua voz, você quer me fazer cosquinha. Por que isso é tão lindo? E eu quero prendê-lo a mim, sentir sua pele fervente ao me abraçar, quero me sentir grudada a você enquanto imersa no seu abraço... Sinto seus olhos viajantes à medida que você acaricia a minha bochecha... Eis que você está ali. Meu sorriso se encantou pelo seu e dá as caras sempre que você o esboça... E você o faz surgir sorrateiro, demorando a deixar a timidez para se mostrar irremediavelmente apaixonante... E eu não resisti.

16.2.11

Referencial

A diferença é meramente referencial.

Eu, tonta feito uma criança frente ao brinquedo novo, sou carregada para perto de você por magia. Quando a nossa distância diminui à metade, quero correr com o dobro de velocidade para abraçá-lo; quando estou muito perto, a força que me leva a você é imensuravelmente poderosa... Preciso do seu abraço, quero segurar sua mão e cobrir seu rosto de beijos por minutos, horas, talvez até dias...

Ah, esse campo magnético que me direciona a você, escondido pelo meu referencial. Sendo campo, não é visível, mas o comportamento é tão recorrente, tão óbvio, tão claro, é impossível não notar sua presença! Quem não notaria a causa de uma força que segue tão fielmente as leis da natureza?

Maldito referencial, por que não consigo ver o que essa atração me causa? Malditas leis da natureza - da vida: sempre ali, mas quem conhece suas causas? Qual é a causa dessa atração fora de série que você exerce sobre mim?

(Vou confidenciá-la a você: é tudo culpa do seu sorriso)

14.2.11

Lá do fundo...

Silenciosamente caminhava o sujeito. Pé ante pé, cercou minha casa, depois a roda em que eu estava, depois minha poltrona e eu - enfeitiçada, pobre de mim! -, eu não o vi. Eu ria a minha felicidade exultante inocentemente... Eu poderia ter dito que ela era a minha melhor amiga, era assim que eu a via.
Nunca mais confiei nela.
Ele me olhava de soslaio enquanto eu suspirava. O dia era o mais lindo, as borboletas pipocavam no ar - eu mal podia contá-las! - e eu poderia dividir minha alegria com cada um ali...
Aí ele me agarrou e não me soltou mais.
Grito por socorro, mas, lá no fundo, sei que ninguém pode me ajudar. Esse sentimento que angustia, que entristece, que carrega consigo toda a mortal desconfiança me põe numa corda bamba. Me deixa, desapontamento...

Tristeza

Olho pela janela e vejo a estrela mais brilhante de todas presa no horizonte... Lembra você. O céu inteiro, as nuvens, a Lua: tudo me lembra você. Não quero olhar pro azul, tão profundo azul, e sentir tristeza. Prefiro saber que, embora você não esteja aqui, quando aquele pontinho que brilha tanto sumir e voltar amanhã à noite, você ainda poderá estar. Não gosto da ideia de você deixar de ser possível... Já fugi à utopia, não quero tê-la de volta! A Lua e as estrelas e os cometas e os astros todos devem ter se escondido por trás das nuvens quando eu fugi ao controle racional de mim. Que vergonha saber que eles estavam ali perto, mesmo que eles não me tenham visto... Não adianta me descontrolar e chorar rios se as lágrimas são minha culpa, mas também não adianta poupá-las.
Só quero sentir esse gostinho de felicidade - a mais pura que há - de tê-lo aqui comigo...

Sorte.


"A felicidade é a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor"

9.2.11

I wanna feel your heart beat for me instead..

8.2.11

Algodão doce

Eu caminhava alegre enquanto o sol queimava meus ombros. O céu estava limpo, as ruas estavam limpas. Não se ouvia o som das buzinas que preenchiam aquele acinzentado cenário.

Por um instante, amei aquele silêncio. Imersa num oceano de pensamentos, sentia o asfalto próximo de mim, a sustentar cada passo que eu dava, a me acolher como um pai.

Logo me cansei daquela monotonia cinza e procurei um refúgio colorido.

Andei por algumas quadras e achei uma floricultura escondida numa outra silenciosa esquina. Sorri para a vitrine e as flores me retribuíram o gesto. Comprei uma rosa amarela, mas logo decidi comprar um vaso de violetas. Queria que aquela (estúpida) felicidade fosse recordada por mais tempo do que permitia a vida de uma rosa.

Caminhei mais e as ruas ainda estavam inexplicavelmente serenas. Um homem passou com uma pasta, uma velhinha passeava com um yorkshire, uma mãe dava a mão ao filho.

A vida é tão linda que eu quis enganar-me e tentar fazê-la durar mais. Foi quando passei por uma barraquinha de algodão-doce. Há quanto tempo eu não via mais barraquinhas de algodão doce?

Dirigi-me a ela, parei ao seu lado, abri a bolsa e contei minhas moedinhas. Ergui os olhos e encontrei os seus. Sua pele morena, seus ombros largos, suas sobrancelhas arqueadas... Por quanto tempo eu devo tê-lo admirado?

Não sei se ele percebeu toda a atração que pesava no ar ao seu redor, mas me perguntou qual eu queria. Pedi o amarelo, entreguei-lhe as moedas separadas, agradeci, sorri.

Virei para o outro lado, dei alguns passos. Decidi voltar.

Entreguei a rosa pra ele, disse que era um presente de bom dia.

Nunca mais o veria - de fato, nunca mais o vi.

Não lhe dei as violetas, mas as rosas - não era um amor, só mais um arrancador de suspiros...

Amordaçada

Amordaçada,
A poesia gritava -
Reagia ferozmente à prisão
À qual fora acorrentada.

Tateava-me o corpo
Completamente cega
(Mas mais viva do que todo o universo).
Não achava escapatória:
Estava fadada a viver presa, sequestrada,
Longe da sua condição louca e livre -
Longe da sua condição de poesia.
Qualquer um se entregaria.

Não o fez a poesia.

Insistente vítima, fiel companheira,
Encheu-me a alma de ecos de angústia,
De felicidade, de paz, de medo,
Povoou-me de todas as formas possíveis.
O que era aquele fogo descontrolado
A me queimar obsceno?

Quando me dei conta,
Ela já estava respingando...
Fez-se prosa, fez-se poesia,
E quando vi, fez-se o amor...

Amor,
A poesia de ser.

7.2.11

Quero escrever

Quero escrever, mas os sentimentos ainda estão trancados dentro de mim. De vez em quando eles escoam por entre as grades e eu cuspo no ar algumas palavras sem sentido, mas não... Ainda não conheço suas formas. Espero que eles se libertem de uma vez, afinal, eles machucam e corroem meu peito indecentemente...

Saudade impotente

Esmagada dez vezes por um trator excepcionamente pesado. Vestígios de vida sob a carcaça abandonada na Carlos de Carvalho.

6.2.11

verschwinden

muito confusa e sem inspiração.. acho que vou deletar umas 3 postagens daqui pra baixo. ou não. dane-se.

5.2.11

medo

Tenho medo.

Se eu soubesse o desfecho da história, acho que teria feito tudo diferente. Entreguei-me cegamente e logo tínhamos os dedos abotoados de Machado. Confiei a você meus segredos, dediquei a você todo o meu carinho e guardei meus risos - os mais puros, os da criança que vivia a rir em mim - para você. Fui feliz.

Decepção, decepções. Previ o fim.

Aí fim.

Vazio. Quando a vida se tornou mecânica, um jogo de obrigações vitais, eu queria me entregar ao sono. Não acordar era não sentir. Só queria mergulhar num novo azul.

Sumi. Minha criança - que hoje chamo "felicidade" - desapareceu.

O azul do mar eu sabia que era estonteante - entretanto, àquela altura, era só o retrato muita água junta. Queria amá-lo.

O que tive à minha volta por aquele tempo infinito? A dor me tornou o mundo preto e branco, de vez em quando via-me numa escuridão absoluta...

Comi, bebi, dormi, andei. Respirei. Vi, não enxerguei. Esqueci que a felicidade deve ser conquistada a cada dia...

Aí lembrei. E fui feliz de novo.

Feliz, mas receosa como uma flor antes de desabrochar. Poupei-me, evitei, fugi. Quando qualquer sensação que eu suspeitasse ser amor tentava tomar espaço dentro de mim, eu a reprimia e a calava para sempre. Morreria ali esse maldito sentimento que me cegara às cores (que eu ainda via pouco vivas).

Até que chegou o ano que mudou tudo...

Mudou aos poucos, mas irreversivelmente. As sensações à flor da pele, exacerbadas e extremistas, me carregaram a realidade dos sentimentos. Não se arriscar à alegria é negar a vida... Os riscos são necessários e eu via isso (via; não arriscava). Ri, chorei, gritei de raiva, gritei minha felicidade ao mundo, guardei quietinha minhas frustrações. Os sentimentos pulsados nas minhas veias me faziam querer experimentar coisas novas e reviver o amor...

Minha vontade de viver me trouxe a um sonho, a uma reprodução aleatória de músicas, a uma confusão e, finalmente, à utopia que era você. Sabia que você me desviaria do meu caminho - literalmente ou não - e você, involuntariamente, fez de mim alguém feliz só por existir e caminhar ali perto. Você nunca me imaginaria, muito menos saberia ter-me feito nova.

Aprecio a redundância que segue ainda nesta frase: acasos deliciosamente aleatórios trouxeram você pra perto por uns momentos que despertaram minha criança adormecida (já há tempos não mais ao leito da morte). E desde sempre eu amei seu sorriso. Mais acasos e uma chuva de felicidade saltitava inquieta em mim. Sinto-a ainda ao ler seu nome...

Pena o mesmo destino que trouxe o acaso ter trazido o descaso.

O tempo quer me levar você. Minha criança não quer se calar, mas não posso me arriscar... Arrasto das profundezas da alma um explosivo "eu adoro você". Já é tarde demais para evitar... Você me desvirtuou do costume de desviar de riscos e eu me arrisquei. Um irremediavelmente eufórico sentimento me coloriu o mundo das cores mais nítidas, mais brilhantes - cores apaixonantes... E você é cheio delas. E você me aconchega num abraço e as cores são tão lindas que eu mal aguento - vermelho, verde, rosa, azul, preto...

Estou suspensa por um fio prestes a se arrebentar. Você me prendeu às nuvens... Amo a sensação de voar, mas minha consciência, com o trauma de suas experiências, me obriga a olhar pra baixo, e as cores somem e só me sobra a escuridão de novo...

Tenho tanto medo de perdê-lo, de não poder mais entregar aos seus olhos todas as minhas confissões, as minhas histórias, meus dilemas, meus segredos mais preciosos... Medo de você estar no chão rindo da minha ilusão àquela exagerada altitude, aproveitando minha profunda felicidade até enquanto durar a sua breve alegria... A distância quer me arrancar você e, embora eu não queira deixar de maneira alguma, tenho medo de ser essa a sua vontade... Temo seus sentimentos. Tenho medo de o seu sorriso não carregar a felicidade que o meu sempre carrega ao vê-lo... Medo de ser tudo unilateral, de ser tudo ilusão desses sentimentos fora de controle dentro de mim.

Sinto saudades e meu medo, carente, convida a angústia, a tristeza e a solidão para lhe fazerem companhia... Hoje me sinto plena e desesperadamente melancólica.

Mais cedo me entreguei às ondas e você pintou o mar de um azul pelo qual eu me apaixonei... E agora não era mais água aglomerada, era - quem diria - um mar, um oceano inteiro!

Mas que medo, que saudade, que tristeza, que vazio...

(Aqui dentro, minha criança ri. E eu amo o mar.)