Tenho medo.
Se eu soubesse o desfecho da história, acho que teria feito tudo diferente. Entreguei-me cegamente e logo tínhamos os dedos abotoados de Machado. Confiei a você meus segredos, dediquei a você todo o meu carinho e guardei meus risos - os mais puros, os da criança que vivia a rir em mim - para você. Fui feliz.
Decepção, decepções. Previ o fim.
Aí fim.
Vazio. Quando a vida se tornou mecânica, um jogo de obrigações vitais, eu queria me entregar ao sono. Não acordar era não sentir. Só queria mergulhar num novo azul.
Sumi. Minha criança - que hoje chamo "felicidade" - desapareceu.
O azul do mar eu sabia que era estonteante - entretanto, àquela altura, era só o retrato muita água junta. Queria amá-lo.
O que tive à minha volta por aquele tempo infinito? A dor me tornou o mundo preto e branco, de vez em quando via-me numa escuridão absoluta...
Comi, bebi, dormi, andei. Respirei. Vi, não enxerguei. Esqueci que a felicidade deve ser conquistada a cada dia...
Aí lembrei. E fui feliz de novo.
Feliz, mas receosa como uma flor antes de desabrochar. Poupei-me, evitei, fugi. Quando qualquer sensação que eu suspeitasse ser amor tentava tomar espaço dentro de mim, eu a reprimia e a calava para sempre. Morreria ali esse maldito sentimento que me cegara às cores (que eu ainda via pouco vivas).
Até que chegou o ano que mudou tudo...
Mudou aos poucos, mas irreversivelmente. As sensações à flor da pele, exacerbadas e extremistas, me carregaram a realidade dos sentimentos. Não se arriscar à alegria é negar a vida... Os riscos são necessários e eu via isso (via; não arriscava). Ri, chorei, gritei de raiva, gritei minha felicidade ao mundo, guardei quietinha minhas frustrações. Os sentimentos pulsados nas minhas veias me faziam querer experimentar coisas novas e reviver o amor...
Minha vontade de viver me trouxe a um sonho, a uma reprodução aleatória de músicas, a uma confusão e, finalmente, à utopia que era você. Sabia que você me desviaria do meu caminho - literalmente ou não - e você, involuntariamente, fez de mim alguém feliz só por existir e caminhar ali perto. Você nunca me imaginaria, muito menos saberia ter-me feito nova.
Aprecio a redundância que segue ainda nesta frase: acasos deliciosamente aleatórios trouxeram você pra perto por uns momentos que despertaram minha criança adormecida (já há tempos não mais ao leito da morte). E desde sempre eu amei seu sorriso. Mais acasos e uma chuva de felicidade saltitava inquieta em mim. Sinto-a ainda ao ler seu nome...
Pena o mesmo destino que trouxe o acaso ter trazido o descaso.
O tempo quer me levar você. Minha criança não quer se calar, mas não posso me arriscar... Arrasto das profundezas da alma um explosivo "eu adoro você". Já é tarde demais para evitar... Você me desvirtuou do costume de desviar de riscos e eu me arrisquei. Um irremediavelmente eufórico sentimento me coloriu o mundo das cores mais nítidas, mais brilhantes - cores apaixonantes... E você é cheio delas. E você me aconchega num abraço e as cores são tão lindas que eu mal aguento - vermelho, verde, rosa, azul, preto...
Estou suspensa por um fio prestes a se arrebentar. Você me prendeu às nuvens... Amo a sensação de voar, mas minha consciência, com o trauma de suas experiências, me obriga a olhar pra baixo, e as cores somem e só me sobra a escuridão de novo...
Tenho tanto medo de perdê-lo, de não poder mais entregar aos seus olhos todas as minhas confissões, as minhas histórias, meus dilemas, meus segredos mais preciosos... Medo de você estar no chão rindo da minha ilusão àquela exagerada altitude, aproveitando minha profunda felicidade até enquanto durar a sua breve alegria... A distância quer me arrancar você e, embora eu não queira deixar de maneira alguma, tenho medo de ser essa a sua vontade... Temo seus sentimentos. Tenho medo de o seu sorriso não carregar a felicidade que o meu sempre carrega ao vê-lo... Medo de ser tudo unilateral, de ser tudo ilusão desses sentimentos fora de controle dentro de mim.
Sinto saudades e meu medo, carente, convida a angústia, a tristeza e a solidão para lhe fazerem companhia... Hoje me sinto plena e desesperadamente melancólica.
Mais cedo me entreguei às ondas e você pintou o mar de um azul pelo qual eu me apaixonei... E agora não era mais água aglomerada, era - quem diria - um mar, um oceano inteiro!
Mas que medo, que saudade, que tristeza, que vazio...
(Aqui dentro, minha criança ri. E eu amo o mar.)
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