8.5.11

É pesado

É pesado demais. O sofrimento se impõe inabalável e me prostro diante da sua presença tão imponente. Toda a realidade com que sonho se mistura à realidade ao meu redor formando a realidade em que vivo e, ainda que me perca feliz no meu abrigo falacioso de palha, preocupo-me. Lá me fiz feliz. Fiz-me feliz, mas receosa - receosa do vento mais sereno fazer toda a palha vir ao chão. Com você ali, eu cabia feliz e segura ora entre meus braços, ora entre seus braços, ora entre nossos braços (esses últimos os melhores). Hoje, enquanto a água me escorre os cabelos, que caem e deslizam pelos meus ombros, tento me conformar que, se os pilares do meu refúgio não são seguros, é hora de procurar um novo abrigo. Não importa o quanto de água tenha percorrido minha pele, não estarei satisfeita com a realidade. Quando mergulho nos seus olhos e estou empanturrada de alegria, tão doce, tão pura, preciso de você e da realidade em que nos inventei. Deixar seus olhos não é uma hipótese para mim, este ser confuso que já mal sabe o que escreve. Intrigo-me com essa ideia: tê-lo, portanto, é uma certeza? Longe disso. Uns diriam que aí está a magia: na incerteza. Para mim, não. Aí está a dor irreparável, a de saber que o que poderia ter sido transformaria por completo a história (fosse isso a continuação do presente, fosse isso um outro rumo). O medo é, ironicamente, um sentimento corajoso. Ousa se revelar nas horas mais impróprias, em que estou hipnotizada por um presente tão delicioso. Ele destrói tudo. Quer me convencer de que é arriscado deixar os capítulos seguirem, de que cada linha a mais é um risco maior. Acendem na minha mente palavras como "dor" e "sofrimento" e o clique da lâmpada quer me fazer enxergar que estar feliz no escuro é aceitar estar cega. Não estou. Sei bem do que se trata: estou apaixonada por essa magia. Encho meu texto de dois pontos e travessões porque ele não é nada além de descrições da razão e devaneios dos sentimentos. Sei bem do que se trata tudo... É medo de que ser feliz hoje me torne infeliz mais tarde. Melhor não sentir do que angustiar uma dor, do que nutrir um sofrimento doentio; não quero deixar minha alma adoecer. Sei, racionalmente, que seus olhos são só mais um par de olhos e quero me deixar convencer de que isso é verdade, mas minha respiração suave reflete um interior feliz ao sentir seus cílios na minha bochecha e já estou certa de que seus olhos são o que já houve de mais encantador no mundo. As luzes se apagam, a casa é tão segura, seu sorriso reúne toda a felicidade que eu posso viver e eu a entorno na minha boca depois de beijá-lo até não conseguir mais. Completo encanto. Posso dar voz à consciência - olhe o quão arriscado isso é! - e então tatear as paredes, acender a luz - clic - e buscar o chão ao meu redor, ver a fragilidade das paredes de palha, procurar segurança (quem sabe não me arriscar mais aos seus beijos...); contudo já não sei se é o que eu quero... Amarei nosso abrigo até a tempestade; e, ainda, quem escreveria as linhas se seguiriam à magia que me sopra o ar que respiro quando estou com você, as linhas que me apaixonariam, se eu desistisse desse ar, se eu desistisse delas? Devo desistir, mas não posso, não consigo... Sensações, inseguranças, ideias, hipóteses, sentimentos, temores pesam dentro de mim. É pesado demais.
Todas essas linhas talvez não façam o menor sentido: o fato é que dói.

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