20.9.11

Colorir

Hoje acordei decidida a mudar.
Os tons que me preenchem a vida não são os que eu quero...

O trabalho de montar o quarto...
De enchê-lo de quadros... De recriar as janelas...
De colocar na casa um telhado novo...
As reticências me levam numa correnteza...
Onda forte...
Difícil fugir.

Difícil mesmo é enxergar o principal trabalho:
O trabalho de desmontar o quarto...
De arrancar os quadros... De consertar as janelas...
De destelhar a casa - de telhas tão fracas! - para, enfim, colocar um telhado novo...
As reticências me levam numa correnteza...
Onda forte...

Mais forte ainda é a sede voraz por viver,
Por fazer,
Por crescer,
Por me preencher,
Por ser.

Recrio e invento cores,
Pinto as paredes do meu quarto,
Arranco quadros e desvio dos pregos espalhados pelo chão,
Colo pelos cantos recordações e saudades,
Enxergo as cores que eu quero que preencham a minha vida.

A vida sempre pode recomeçar;
E, ao me dar conta das sutilezas dos tons que me encantam,
Começo a recolorir e recriar a vida.

Faço-me, enfim, nova.
Farei-me, enfim, feliz.

8.9.11

Noite morta

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...

(Não desta noite, mas de outra maior.)


Manuel Bandeira
Petrópolis, 1921