Vivo, sobrevivo, me pego respirando e não é nada disso. Não foi com isso que eu sonhei... Também não foi com carruagens e um palácio, não foi com medalhas nem com troféus, não foi com Natais com a ceia farta, tampouco com contratos e promoções, nada disso. Não sonhei. Viver dá trabalho demais, sonhar suga as energias trocadas por muito suor na colheita diária (e ora infernal) da sobrevivência. Me deixa, me larga aqui quieta, quero descansar, quero a inércia em cada canto de mim. O dia está nublado, esqueci as janelas abertas, o vento me incomoda. Deixa o vento, deixa os arrepios. Começa a chover, sinto água, pingos, gotas, moléculas, definições da existência de algo - da água, de pingos, de gotas, da chuva - despencarem sobre mim; me molham, me encharcam, me congelam e eu ainda quero estar lá e nada faz sentido. Não é que eu queira estar lá: não quero não estar lá. Quero estar em lugar nenhum. Transformo o tapete no meu lugar nenhum, me encolho, tento desaparecer, fim. Decreto pausa à existência e o cérebro entra em standby e logo se desliga. Por uns instantes sou nada, quero ser nada. As gotas vão e vêm e existem tanto quanto eu, vivem tanto quanto eu. A água evapora, formam-se nuvens, desabam gotas, tudo recomeça e nada faz sentido. Onde se esconde a felicidade? A praticidade de me esticar no chão e não viver acalenta meus desejos mais profundos de querer ser nada. Exaurida da busca pela felicidade, essa utopia maldita sonhada há milênios, entrego-me às obrigações básicas da sobrevivência (que vez ou outra acredito ser vida). Quero ofertas
de felicidade me batendo à porta e estampando encartes promocionais a juros zero de forma que esticar a mão me permita agarrá-la e dominá-la definitivamente - se ela existir... Viver - utopia segunda, devaneio da fantasiosa felicidade - sem tê-la não me é uma ideia concebível. Ela tem de existir, decreto! Gosto de estar ali, com tantos pensamentos vagando num espaço ainda maior de tempo, numa velocidade que tende a zero à medida que o conformismo com a realidade falaciosa se aproxima. Gosto? Se gosto, me agrado; se me agrado, estou contente; se estou contente, posso estar alegre; se estou alegre, posso por um instante ser feliz? Abro os olhos molhados, olho através da janela a chuva caindo lá fora, indiferente aos meus sentimentos, volto a não compreender nada e prefiro me ausentar da vida afogada na ignorância sobre ela. Estou ali, o sangue vaga pelos meus tecidos, impulsos nervosos me percorrem o corpo, pensamentos infinitos se chocam, se unem, se reprimem, se manifestam, respiro e ainda estou viva. Venta, faz frio, novamente me arrepio. Enxergo a escuridão sob a minhas pálpebras e não sinto mais nada. A chuva ainda castiga as ruas e os pingos ainda batem sobre as minhas costas quando o telefone toca. Faço menção de andar até ele, levanto meu tronco para esticar a mão e alcançá-lo. Passo a mão sobre os olhos que então veem turvo, leio seu nome, meus lábios criam um sorriso e, finalmente, vivo feliz.
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