A areia preenche as curvas de um pé, logo do outro também. Os incontáveis grãos são sentidos, cada um, por aquela pele fria que se esquenta no contato com aquele chão quente e fofo. Logo esses grãos são deixados pra trás e outros afagam carinhosamente aqueles pés, também logo substituídos por mais outros, e aquela poligamia convém tanto para os pés quanto para os grãos. À medida que o caminhar deixa a areia quente para trás, surge o primeiro vestígio do mar - o solo úmido. Os pés repousam por um instante e sentem, acariciam, abraçam, tocam, descobrem indícios do frio em meio à infinidade de pedacinhos de areia. Poucos sentiriam a brisa que o pescoço sentia passeando por lá e outros poucos escutariam as palavras sussuradas pela água escondidas no quebrar das ondas. O pé esquerdo hesita sobre seguir, no entanto põe-se à frente do direito à espera da água. É em vão. Muito mais coragem é necessária para o primeiro e assustador contato com a água. Dar mais alguns passos requer uma força que o medo esconde... Abrir os olhos não traria a visão deste espetáculo amedrontador. Os dedos se escondem na mão que se fecha, a testa se franze. As sensações são tão vivas quanto o medo da frustração. A pele é especialmente sensível e os ouvidos parecem escutar até o que se fala do outro lado do oceano mas, mesmo assim, hoje falta algo. Uma bolinha de água desenha um fio pelo rosto - só pode ser uma lágrima - e, de repente, várias outras a seguem no desabar desesperado de todas as emoções que transbordam afoitas daqueles olhos. Os joelhos cedem e as mãos apoiam aquele sentar mais pesado do que todos aqueles grãos de areia que o seguram. Os ouvidos ficam surdos às ondas e o único som é o das vozes, que não param de falar uma por cima da outra.
Eis que faz-se silêncio. De súbito os pés sentem-se envolver por gelo - não, por água, por uma água incrivelmente gelada, docemente gelada, que acorda os pés à vida... E as mãos, assim como os pés, sentem grãos de areia, um, dois, cinco, doze, cem, mil... O cheiro de sal é forte, o sol já está mais fraco - teria uma nuvem o encoberto? - quando vem ao socorro daquelas emoções confusas a força. De repente os braços empurram aquele tronco inseguro, as pernas se cruzam no impulso do levantar. E a força é tamanha que, não fossem as sobrancelhas baixas, jamais teriam cogitado haver medo sob aquela pele sensível. Os pés caminham firmes enquanto as pernas se molham; as mãos não podem estar mais seguras enquanto a barriga e as costam se banham, trazendo um arrepio à nuca. A água já está pela altura do pescoço quando a mão leva à boca um pouco daquele mar e, para aquela língua tão especial, esse gosto deveria ter um nome especial, talvez algo próximo de "salgado", "exótico", "delicioso"... Ou nada que as palavras conhecessem também. Pouco importa: a vontade é de sentir por inteiro aquele mar. A cabeça se deixa afundar e os braços, inclinados para a frente, abrem-se e fecham-se, e o desejo é de devorar o mar, o oceano inteiro. Quando os pulmões já querem reconquistar o ar, os olhos já seriam completamente inúteis. Num balançar suave, todos os membros, numa harmonia incomparável, guiam-se de volta à terra. Quando cessa o contato com a água, as emoções não são pesadas, mas tão leves quanto hélio. A alma vive novamente e sente... Será que ela nunca havia sentido antes? Aquelas emoções fazem aquela alma enxergar como olhos nunca a tinham feito enxergar antes.
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