30.11.10

Clarice

Comprei um livro da Clarice e me apaixonei por um texto. Vou dar também aos meus poucos leitores o luxo de se deliciarem com ele:


uma história de tanto amor

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longíquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia : "Você não tem coisa nenhuma no fígado". Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:

- Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou:

- Nós comemos Petronilha.

A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe:

- Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.

Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

Um trechinho

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

(Álvaro de Campos)

22.11.10

Fim!

Acabou o vestibular pra mim. Farei a UFF e a UERJ simbolicamente. Depois de insônias nas madrugadas que precederam o ENEM e a UFRJ, depois de dois dias de PUC, um de Ibmec (ainda mais simbólico do que as outras provas serão), dois de ENEM, dois de UFRJ, cá estou eu, livre, leve e solta. Se eu não passar na UFRJ, o que eu acho que não vai acontecer, não farei UFF, não farei UERJ (a não ser, talvez, pela matemática e pela física). Se nada der certo, curso IME/ITA 2011 é nós!

Finalmente, terei tempo pras coisas bobas do dia a dia (sem hífen, que coisa terrível). Poderei gastar tempo preparando as coisinhas que eu gosto de comer, verei todos os episódios de Friends que ainda não vi, irei sempre à piscina e à praia, sairei à noite, alugarei filmes, lerei meus deliciosos e ansiosos livros, dormirei tão tarde quanto eu queira, lerei sobre a minha amada e curiosa relatividade... Tantas coisas pra fazer e TANTO TEMPO para isso... =)

A saudade dói, mas fortalece. O tempo de colégio passou, mas o que vem ainda é tão lindo!

13.11.10

if there's something on your way to happiness trying to stop you from achieving your goal, instead of being sorry, just kick it out of the way. whether you believe something is possible, your chances grow bigger and bigger until you get what you want. if you think fate carries all the responsibilities upon its shoulders, you'd better give up and admit you're givin in - the strong ones are winning while you let your dreams come out of your life just because you decided to spare some effort.
believing is the first step to fullfill a dream. insisting on trying all the time is the second one... being confident about your gifts and your abilities is the last one.
never give up till' you get there.

11.11.10

8.11.10

ENEM

Temos que admitir que é muito difícil mesmo aplicar uma prova da abrangência do ENEM... O MEC tem que perceber, por outro lado, que, se as dificuldades ainda não foram superadas, não se deve contar com compreensão e boa vontade, mas sim encarar que um exame assim não pode ser aplicado.

1.11.10

Que saudades de repente!

Do seu sorriso, dos seus olhinhos azuis.. Da sua blusa listrada. Da cerveja. Da sua coberta. Do seu abraço. Da sua voz.. Do seu carinho. Do seu cabelo amarelo, da raiz branca, dos fios espetados. Do seu beijo... Da sua companhia! Da sua língua.. Da sua preocupação, que preocupação linda! Das suas palavras lindas no teor, nos Umläute, na doçura... Do seu abraço... Dos dias com você... De você.


10^4..