28.3.11
A impotência (e uma pitada de egoísmo)
1/7.000.000.000: esse número sou eu, esse número é você. E eu me pergunto: o que nós somos? Nada, insignificantemente nada, só mais um ou outro dos bilhões de seres humanos que vagam pela Terra. As guerras eclodem e cessam, os cientistas escrevem incansáveis artigos, os campeonatos de futebol começam e acabam num ciclo infinito e nós somos nada. Eu, escrevendo meu texto, você, do outro lado, lendo, e ainda sim somos nada. Não é por poder enxergar ou tocar ou rir ou sentir que somos algo - somos nada. Júpiter é dezenas de vezes maior do que a Terra e nós somos milhões de vezes menores do que a Terra e me envergonha essa nossa insignificância. Morreu um casal num acidente de carro e não são Carlos ou Luisa, mas sim homem de 35 anos embriagado e esposa grávida. Morreram 2, morreu o número dois. Afinal de contas, existir não necessariamente significa ser, muito menos ser algo. Por isso vivemos o microcosmo - então somos algo. As famílias choram a doença dos avós e amargam a rebeldia dos filhos - então avós e netos deixam de ser nada e são algo. Mas até onde? Até onde um problema vai me importar de verdade ou até onde as minhas angústias - estúpidas angústias de uma em sete bilhões de pessoas - vão interessar a você ou ousar tomar sua atenção? Até onde eu importarei para você, aliás, quando importarei para o mundo? Até onde deixarei você importar para mim, você, mais um entre sete bilhões! Até onde aceitarei o mundo ignorar a você, ignorar a mim, ignorar nossas conversas, nossas brigas, nossos beijos, o que acontece entre nós? Como aguentar ver o mundo ignorar o que acontece comigo e com você, que vivemos nesse mesmo mundo? Ignorando as manchetes de jornal, posso ouvir a discussão à mesa de jantar e perceber que, voltando a esse microcosmo, nesse meu mundo que duas dúzias de parede demarcam, posso ser algo também, como será Luisa no seu velório às duas da tarde (já esquecida décadas depois devorada por fungos). Ponho-me a escrever, a cantar, a sacudir as cordas do violão buscando alguma melodia, a pensar, a tentar criar, inovar, inventar, nascer, crescer, viver, rir, descobrir, permitir - a tentar ser algo. Mas está muito quente e abro a janela, abro a janela e vejo centenas de luzes nos prédios e nos carros e no Corcovado e me dou conta: sou nada, você é nada e temos de nos conformar com essa insignificância compulsória e onipresente da vida. (Por acidente digitei "inconformar", mas tive de me corrigir; se inconformar com fatos em relação aos quais somos impotentes é mais do que perda de tempo, é romantismo insensato de um poeta mais do que insensato, burro).
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