28.3.11
C'est mort
Ah, Gabriela, tão doces sonhos! Doces como a menina que passeava pelas ruas com sua saia leve, suave com seu andar de quem toca o chão com a ponta dos pés... Tão doce! Gabriela trazia tanta paz com o cheiro de incenso que às vezes ficava pregado às suas roupas e nos olhos caídos que lhe traçavam sua fisionomia serena... "Talvez ela seja feliz", pensou consigo o homem de terno do outro lado da rua. Nossa imaginação adora se apropriar dos cenários e das personagens sobre quem pouco sabemos e a quem adoramos atribuir fantasias... Ah, o homem não saberia que aquela era a aparência constante de Gabriela, que pouco mudava, fossem quais fossem os ares. A tarde cedeu lugar à noite, os postes se acenderam, as luzes meio amareladas começaram a iluminar as ruas. Ela ainda caminhava - ah, tão doce! Não era só o homem de terno, Hugo também achava isso, por isso batia incessantemente a colherzinha na xícara de café - que já era sua segunda naquele fim de tarde. Como odiava usar sapatos, como camisas sociais o incomodavam! O clima do pub era quente e agradável, um jazz tocava ao fundo fugido do saxofone do músico lá do fundo. Para ele, a noite pediria brownies, talvez muffins ou sorvetes, quem sabe muffins e sorvetes juntos. Pediria; não pedia. O clima era agradável para todos os casais e grupos de amigos que se acomodavam por aqueles sofás, circulados por um calor aconchegante, contraste perfeito ao vento congelante por trás das janelas que davam para rua. Hugo sentia calor demais, suava um pouco, já tinha tirado o paletó quando pediu uma dose de uísque. Mal olhou para o garçom, virou a dose garganta abaixo, os olhos se encheram d'água, ele respirou fundo, se afundou no sofá. Era um homem muito lindo, não nos poupemos dos detalhes: cabelos pretos espetados, barba rala, olhar desconfiado, sedutor - para algumas a roupa social pode até contar como mais um atrativo para ele. Não era nada daquilo o que a moça da saia florida procurava nele hoje, conhecia bem aquela beleza toda e, embora a admirasse, buscava muito mais. Um sininho fez barulho, Hugo correu os olhos nervosos para a porta e lá estava ela. Por que tão tranquila? Será que ela também não sentia o ar desesperadamente pesado sobre si? Ela olhou para os lados enquanto desfazia distraída sua trança, procurando Hugo ao soltar seu fios cor de ouro. Os olhos de paz encontraram os de angústia; ela sorriu; ele forçou um sorriso; ela caminhou em sua direção. "Pronto, vamos fingir que está tudo bem de novo, que não falta nada quando estamos juntos conversando, nos beijando ou de mãos dadas" - ele teve um sobressalto. Ela se deixou afundar no sofá ao seu lado, pegou sua mão e a beijou. Ele virou o rosto, deu-lhe um beijinho. Conversaram - ele contou do dia tenso, narrou minuciosamente suas dezenas de afazeres, reclamou da secretária enrolada que trazia mais problemas do que soluções; ela contou das plantas que ficaram com as folhas secas porque ela se esqueceu de regá-las e falou da sapatilha roxa linda que comprou numa loja ali perto. Ela pediu um muffin e um sorvete, ele pediu um café. A conversa fluía. A chuva, o cachorro que arranhou o sofá - mas tudo bem, ela já queria estofá-lo -, o cafezinho gostoso, a camisa amarrotada. Gabriela sentia a irreversibilidade da situação: os toques não eram mais arrepiantes, os sussuros já não eram mais tão sedutores e, ela sabia tão bem quanto ele, seus olhos negros clamavam por socorro. Faltava a calmaria do amor, a chama que não incendeia florestas, mas que arde quieta e controlada nas lareiras tão acolhedoras. As mãos que se acariciavam eram frias num ambiente inóspito para corações tão gélidos. Ele sentia bem o peso de sustentar aquilo, no entanto não compreendia o que havia de errado naqueles olhos caramelos ou naquela voz ou nas palavras que ela carregava... Ele decidiu fumar um cigarro, procurou seu isqueiro, catou por entre os bolsos, pela pasta. Ela meteu a mão na bolsa, tateou besteiras quaisquer e tirou seu isqueiro. Inclinou-se para acender o cigarro de Hugo; não ligava. Tic, tic, tic, tic, tic e o isqueiro não se acendia. Ali foi selado o fim; ainda saíram juntos, ele foi para a casa dela, fizeram amor, se despediram - e os olhos caídos de Gabriela, diria o homem de terno do outro lado daquela rua, por um segundo pareceram desabados -, mas o isqueiro não pôde trazer nenhum vestígio de chama, nenhuma faísca sequer daquele amor, daquelas cinzas que jazeriam tranquilas cheirando a incenso e a café.
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