Eu caminhava alegre enquanto o sol queimava meus ombros. O céu estava limpo, as ruas estavam limpas. Não se ouvia o som das buzinas que preenchiam aquele acinzentado cenário.
Por um instante, amei aquele silêncio. Imersa num oceano de pensamentos, sentia o asfalto próximo de mim, a sustentar cada passo que eu dava, a me acolher como um pai.
Logo me cansei daquela monotonia cinza e procurei um refúgio colorido.
Andei por algumas quadras e achei uma floricultura escondida numa outra silenciosa esquina. Sorri para a vitrine e as flores me retribuíram o gesto. Comprei uma rosa amarela, mas logo decidi comprar um vaso de violetas. Queria que aquela (estúpida) felicidade fosse recordada por mais tempo do que permitia a vida de uma rosa.
Caminhei mais e as ruas ainda estavam inexplicavelmente serenas. Um homem passou com uma pasta, uma velhinha passeava com um yorkshire, uma mãe dava a mão ao filho.
A vida é tão linda que eu quis enganar-me e tentar fazê-la durar mais. Foi quando passei por uma barraquinha de algodão-doce. Há quanto tempo eu não via mais barraquinhas de algodão doce?
Dirigi-me a ela, parei ao seu lado, abri a bolsa e contei minhas moedinhas. Ergui os olhos e encontrei os seus. Sua pele morena, seus ombros largos, suas sobrancelhas arqueadas... Por quanto tempo eu devo tê-lo admirado?
Não sei se ele percebeu toda a atração que pesava no ar ao seu redor, mas me perguntou qual eu queria. Pedi o amarelo, entreguei-lhe as moedas separadas, agradeci, sorri.
Virei para o outro lado, dei alguns passos. Decidi voltar.
Entreguei a rosa pra ele, disse que era um presente de bom dia.
Nunca mais o veria - de fato, nunca mais o vi.
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