28.3.11

A impotência de viver

Desço a passarela normalmente apressada - horários não são o meu forte. Talvez eu não corresse por querer chegar na hora, mas para tentar fugir daquela realidade. O ônibus já ia saindo, fiz sinal - motorista, motorista, para, por favor... Ele parou, obrigada, bom dia, passei pela trocadora sorridente e me sentei querendo arrancar aquele sorriso do rosto dela. Ela ficaria ali, pendurada naquela maldita cadeira horas e horas daquele dia, pegaria o ônibus lotado, enfrentaria a exaustão para ganhar um salário mínimo, dois, talvez. Isso não pode ser normal. Larguei minha mochila do meu lado e pus os olhos na janela. Não queria voltar e passar pela entrada do metrô de novo, sentir a maior impotência possível. O menino encostado à parede, sentado, largado, com os olhos entreabertos e a mão esticada, os dedos tão finos e fracos se forçando a ficar abertos contando com a mão se enchendo moedas. Eu abro a carteira e notas podem encher as minhas (robustas) mãos. Ainda que eu pudesse tirá-lo dali e mudar sua vida, através daquela janela eu via multiplicada aquela realidade, talvez não nas mesmas condições, mas ainda em situações desumanas. Os barracos se aglomeram e preenchem todo o espaço da visão que não é ocupado pelo céu, e o dia ensolarado seria o mesmo que um dia de tempestade. As tristezas da vida são tantas que a alma pode ser algo um tanto quanto melancólico. Não consegui ser feliz naquele dia, nada no meu mundo - nesse mundo minúsculo em que eu vivo - poderia mudar o âmago amargo do meu ser. Os dedos finos do menino são só mais alguns dos milhões, bilhões de dedos magros de miseráveis que não podem dizer que vir ao mundo foi uma sorte. Como ser feliz se o mundo não o é também?

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