31.3.11
28.3.11
C'est mort
A impotência (e uma pitada de egoísmo)
A impotência de viver
22.3.11
Lua
13.3.11
7.3.11
A hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Vinicius de Moraes
Trevo
(Embora não conte que vá perdê-la, guardo uma dúzia de trevos no bolso para possíveis imprevistos.)
3.3.11
Paradoxo
Que me habita confusamente.
Desdenho da clareza das ideias
Quando mal sei cuidar de antíteses.
Tombando entre impossibilidades,
Vejo-me tão atraída por esse mundo
Que me reservam as inconstâncias da alma!
Vivo a claridade do breu pelo qual
Oscilam minhas falsas verdades.
Brumas desnudam minha fajuta realidade,
A névoa abraça as incertezas que vagam.
Um vulcão entra calmo em erupção
E a crueldade da destruição torna-se...
Algo como gosto ou prazer.
Embargam-me os olhos emoções impossíveis,
Um temor alegre, felicidade e tristeza compassivas;
Bebo sedenta o copo de vinho vazio
No qual mergulham minhas mágoas mortas.
Relampeja um amor nas minhas entrenhas,
O sangue ferve e congela ao mesmo tempo,
As dúvidas semeiam minhas células.
Entro em colapso existencial.
Eis que, quando já me cansam
Todas essas contradições de ser,
Tateio o intangível
E - plenamente como nunca - me descubro humana...
Sentir é próprio da alma
Eis que faz-se silêncio. De súbito os pés sentem-se envolver por gelo - não, por água, por uma água incrivelmente gelada, docemente gelada, que acorda os pés à vida... E as mãos, assim como os pés, sentem grãos de areia, um, dois, cinco, doze, cem, mil... O cheiro de sal é forte, o sol já está mais fraco - teria uma nuvem o encoberto? - quando vem ao socorro daquelas emoções confusas a força. De repente os braços empurram aquele tronco inseguro, as pernas se cruzam no impulso do levantar. E a força é tamanha que, não fossem as sobrancelhas baixas, jamais teriam cogitado haver medo sob aquela pele sensível. Os pés caminham firmes enquanto as pernas se molham; as mãos não podem estar mais seguras enquanto a barriga e as costam se banham, trazendo um arrepio à nuca. A água já está pela altura do pescoço quando a mão leva à boca um pouco daquele mar e, para aquela língua tão especial, esse gosto deveria ter um nome especial, talvez algo próximo de "salgado", "exótico", "delicioso"... Ou nada que as palavras conhecessem também. Pouco importa: a vontade é de sentir por inteiro aquele mar. A cabeça se deixa afundar e os braços, inclinados para a frente, abrem-se e fecham-se, e o desejo é de devorar o mar, o oceano inteiro. Quando os pulmões já querem reconquistar o ar, os olhos já seriam completamente inúteis. Num balançar suave, todos os membros, numa harmonia incomparável, guiam-se de volta à terra. Quando cessa o contato com a água, as emoções não são pesadas, mas tão leves quanto hélio. A alma vive novamente e sente... Será que ela nunca havia sentido antes? Aquelas emoções fazem aquela alma enxergar como olhos nunca a tinham feito enxergar antes.
