10.4.11

Madrugada

Ela forçava as pálpebras insistentes, sentia desconforto, virou para o outro lado, a luz vermelha do relógio a incomodava. Saiu da cama, reagitou o corpo - que estupidez para alguém com insônia! - e tampou o relógio com uma blusa. Que horas são? Puxou a blusa; eram 2:52h e ela levanta às 7:00h. Droga, menos de oito horas de sono! Como se o problema fosse o sono... Deitou, cobriu-se, descobriu-se, virou para um lado, deitou de bruços, apoiou a perna sobre um travesseiro, nada. A inquietude física era reflexo de um mente completamente perturbada pela insegurança. O quanto deveria confiar? O quanto deveria se deixar levar? Deitou de barriga para cima, olhou para o teto, deparou-se inúmeras vezes com as mesmas indagações e nenhuma resposta. Fechou os olhos, tentando sumir daquelas sombras escuras. Ligou o ar condicionado, deitou. Era ingenuidade demais achar que, com toda aquela agitação, dormiria logo; mais ingênuo ainda era se deixar levar assim... Gostar de alguém, ainda que pouco, é perigoso. O relógio apitou, 4:00h. As horas corriam, as dúvidas se multiplicavam e ela o veria mais tarde. Ela o veria, passariam a tarde juntos, conversariam, se beijariam, contariam históricas, relembrariam um passado de descobertas talvez próximo demais para aquele estado de relacionamento. O pé dela estava um gelo. Cobriu-o, agarrou um bichinho de pelúcia. O corpo queria movimento, o sono não era um opção. Deixá-lo seria uma opção? Ele ficaria desamparado? Ela, talvez? Adorava seus beijos, às vezes se lembrava do seu calor ao abraçá-la e lhe escapava um sorriso, vez ou outra se via feliz ao pensar nele... Espera, mas isso não é amor! Droga, precisava dormir, esticou o corpo, ajeitou-se sob a coberta, relaxou o rosto. O quanto ela gostava dele? Ele significava muito para ela; à medida que seu dia corria, mais crescia uma vontadezinha de falar com ele, de saber do seu dia, de contar as bobagens rotineiras de mais um dia. Significava muito por quê? Maldito ar condicionado, forte demais - ela aumentou a temperatura. Talvez uma entrega inicial excessiva tenha trazido responsabilidades muito pesadas para um jovem relacionamento de jovens. Talvez isso tenha sido o motivo de ele significar tanto, talvez ele signifique muito compulsoriamnte, talvez ela imponha isso inconscientemente... Ela deitou de bruços, botou uma almofada sob a barriga, esticou os braços. O que fazer? Largar ao vento? Deixar-se entregar? Forçar de si o amor? Deixar o carinho dar - ou não - lugar ao amor? Um sentimento talvez breve, talvez duradouro, talvez real, talvez intenso, talvez feliz, talvez decepcionante, talvez platônico, talvez animador, talvez catastrófico, talvez recíproco, talvez unilateral, talvez, talvez, talvez..
Se com ele os dias eram muito mais agradáveis e se a vontade de enchê-lo de beijos não passava, é porque aquilo a fazia bem e ela deveria deixar tudo continuar assim. Então o ar ficou leve, suas pálpebras começaram a pesar, ela ajeitou o rosto sob uma mão, sua respiração ficou suave. Ainda sem saber que seria feliz na companhia dele aquele dia, lembrou-se do seu abraço, do seu sorriso, do seu cheiro e decidiu que no dia seguinte ela iria, mais do que simplesmente vê-lo, querer vê-lo, e então, com um discreto sorriso pregado aos lábios, adormeceu.

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