30.4.11

Preguiça de viver

Vivo, sobrevivo, me pego respirando e não é nada disso. Não foi com isso que eu sonhei... Também não foi com carruagens e um palácio, não foi com medalhas nem com troféus, não foi com Natais com a ceia farta, tampouco com contratos e promoções, nada disso. Não sonhei. Viver dá trabalho demais, sonhar suga as energias trocadas por muito suor na colheita diária (e ora infernal) da sobrevivência. Me deixa, me larga aqui quieta, quero descansar, quero a inércia em cada canto de mim. O dia está nublado, esqueci as janelas abertas, o vento me incomoda. Deixa o vento, deixa os arrepios. Começa a chover, sinto água, pingos, gotas, moléculas, definições da existência de algo - da água, de pingos, de gotas, da chuva - despencarem sobre mim; me molham, me encharcam, me congelam e eu ainda quero estar lá e nada faz sentido. Não é que eu queira estar lá: não quero não estar lá. Quero estar em lugar nenhum. Transformo o tapete no meu lugar nenhum, me encolho, tento desaparecer, fim. Decreto pausa à existência e o cérebro entra em standby e logo se desliga. Por uns instantes sou nada, quero ser nada. As gotas vão e vêm e existem tanto quanto eu, vivem tanto quanto eu. A água evapora, formam-se nuvens, desabam gotas, tudo recomeça e nada faz sentido. Onde se esconde a felicidade? A praticidade de me esticar no chão e não viver acalenta meus desejos mais profundos de querer ser nada. Exaurida da busca pela felicidade, essa utopia maldita sonhada há milênios, entrego-me às obrigações básicas da sobrevivência (que vez ou outra acredito ser vida). Quero ofertas
de felicidade me batendo à porta e estampando encartes promocionais a juros zero de forma que esticar a mão me permita agarrá-la e dominá-la definitivamente - se ela existir... Viver - utopia segunda, devaneio da fantasiosa felicidade - sem tê-la não me é uma ideia concebível. Ela tem de existir, decreto! Gosto de estar ali, com tantos pensamentos vagando num espaço ainda maior de tempo, numa velocidade que tende a zero à medida que o conformismo com a realidade falaciosa se aproxima. Gosto? Se gosto, me agrado; se me agrado, estou contente; se estou contente, posso estar alegre; se estou alegre, posso por um instante ser feliz? Abro os olhos molhados, olho através da janela a chuva caindo lá fora, indiferente aos meus sentimentos, volto a não compreender nada e prefiro me ausentar da vida afogada na ignorância sobre ela. Estou ali, o sangue vaga pelos meus tecidos, impulsos nervosos me percorrem o corpo, pensamentos infinitos se chocam, se unem, se reprimem, se manifestam, respiro e ainda estou viva. Venta, faz frio, novamente me arrepio. Enxergo a escuridão sob a minhas pálpebras e não sinto mais nada. A chuva ainda castiga as ruas e os pingos ainda batem sobre as minhas costas quando o telefone toca. Faço menção de andar até ele, levanto meu tronco para esticar a mão e alcançá-lo. Passo a mão sobre os olhos que então veem turvo, leio seu nome, meus lábios criam um sorriso e, finalmente, vivo feliz.

Lindinho

Estou com sono, quero dormir, mas já não posso mais adiar uma confissão: me lembrar de você me faz feliz. Imersos na rotina citamos a felicidade e pensamos nela sem, no entanto, saboreá-la. Você, contudo, me dá esse prazer ao correr pelas minhas lembranças sorrindo enquanto dorme seu sono inquieto - e é tão inquieto! Você se vira para a esquerda, para a direita, procura me tocar, dobra e estica os braços, puxa a coberta e a abandona, seu corpo ainda hesita sobre se mexer mais uma vez... É um sono inquieto, porém não perturbador, mas apaixonante. Como uma criança cheia de energia que mal para quieta, você se agita incessantemente - e vez ou outra me beija e, ah, você não imagina o efeito do seu sorriso sobre mim! Como tê-lo ao meu lado é feliz, como seu abraço é reconfortante! Nesses lapsos de alegria, tão pura, tão ingênua, vejo como você importa, o quanto a sua doçura é encantadora... Contenho ímpetos de procurá-lo e dizer "gosto tanto de você!" me perguntando se isso o traria um décimo da satisfação que eu sinto só ao ler seu nome. Sou desconfiada e insegura, mas, juro, não é por mal! É que eu duvido que eu possa te fazer feliz ao menos um pouquinho do que você já me faz... Doce é a embriaguez da felicidade! Já não é mais uma opção pra mim não gostar de você - eu já gosto muito dessa embriaguez...

26.4.11

il fait chaud

Você me abraça com o corpo quente, um leve arrepio toma conta da minha perna; ele também alcança meu pescoço, que se deixa deitar no seu ombro - faz calor. Grudo meus olhos nos seus indecentemente, com uma fome voraz: é mais que necessário, preciso devorá-lo para sobreviver. Tento cobrir suas costas inteiras com as minhas mãos, aperto-o contra mim num abraço desesperado por engoli-lo; volto meus olhos em chamas novamente para os seus, desconfio de sua respiração estar levemente ofegante, embargo-nos num beijo aflito por nos incorporar um ao outro. Minhas mãos deslizam pelo seu corpo quando, entre abraços mais fortes do que eu supunha poder dar, beijo sua boca, seu rosto, seu pescoço, agarro-o e me deixo ser inteiramente enfeitiçada. Meus olhos cruzam com os seus ainda mais uma vez e, com os corpos exauridos da urgência de ter um ao outro, você me agracia com o sorriso mais doce de todos - um brinde à felicidade.

14.4.11

Insanidade

Sou muitas, sou todas, sou algumas, sou nenhuma.
Uma infinidade de eus são bombeados por esse meu coração -
inquieto, pobre dele!
Tantas coisas habitam este espaço tão limitado do meu corpo,
tantas coisas povoam o universo das minhas ideias...
Sou arte e todo ser humano o é
na destreza dos seus reflexos mais humanos.
Somos a arte da vida, a arte da existência.
Carimbo, nos meus diferentes arrepios,
diferentes situações, histórias, emoções, temores,
e logo alago sem pudor meus olhos em lágrimas
e logo alago sem pudor meu rosto num sorriso.
O céu negro vira azul, vira roxo, lilás, rosa;
os raios do Sol caminham pelo meu quarto;
de uma vez por todas tenho certeza: magia!
Espalham-se em mim as sensações mais escandalosas,
vou dos pensamentos mais diversos a alucinações da razão.
Meu corpo fica dormente e, por um instante,
vejo-me presa a um formigamento descontrolado que,
por um instante, pergunto-me não serem mesmo formigas.
Sigo à risca a insensatez de todos os poetas:
deixo sutis vestígios de cada um dos meus infinitos eus e,
entre versos desafinados,
assino minha loucura,
delineio o cortorno de uma alma,
alma encharcada de amor e de uma urgência insana,
urgência insana de testar todas as possibilidades da vida,
vida desesperada para ser vivida.
Os peixinhos beliscam meus pés...
Como é lindo.

É talvez o último dia da minha vida.

É talvez o último dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
(Alberto Caeiro)

Pássaro, um pássaro

A ave presa.
O céu entre as grades prateadas,
Que não brilham -
Não como a bola amarela pendurada no azul.
O limite da gaiola.
O ilimite de lá fora.
Os olhos devoram o novo,
Aquele que às asas caberia.
Alaga-se o coração
De uma tal coisa, um delírio!
Ora, que ideia, pássaro!
Olho a vida pacata aqui,
É pacata, é segura!
Mas... Isso é vida?
É isso a vida?
E a vida lá fora? Sou pássaro!

Ora, que ideia, pássaro!
Você é só um pássaro.

10.4.11

Madrugada

Ela forçava as pálpebras insistentes, sentia desconforto, virou para o outro lado, a luz vermelha do relógio a incomodava. Saiu da cama, reagitou o corpo - que estupidez para alguém com insônia! - e tampou o relógio com uma blusa. Que horas são? Puxou a blusa; eram 2:52h e ela levanta às 7:00h. Droga, menos de oito horas de sono! Como se o problema fosse o sono... Deitou, cobriu-se, descobriu-se, virou para um lado, deitou de bruços, apoiou a perna sobre um travesseiro, nada. A inquietude física era reflexo de um mente completamente perturbada pela insegurança. O quanto deveria confiar? O quanto deveria se deixar levar? Deitou de barriga para cima, olhou para o teto, deparou-se inúmeras vezes com as mesmas indagações e nenhuma resposta. Fechou os olhos, tentando sumir daquelas sombras escuras. Ligou o ar condicionado, deitou. Era ingenuidade demais achar que, com toda aquela agitação, dormiria logo; mais ingênuo ainda era se deixar levar assim... Gostar de alguém, ainda que pouco, é perigoso. O relógio apitou, 4:00h. As horas corriam, as dúvidas se multiplicavam e ela o veria mais tarde. Ela o veria, passariam a tarde juntos, conversariam, se beijariam, contariam históricas, relembrariam um passado de descobertas talvez próximo demais para aquele estado de relacionamento. O pé dela estava um gelo. Cobriu-o, agarrou um bichinho de pelúcia. O corpo queria movimento, o sono não era um opção. Deixá-lo seria uma opção? Ele ficaria desamparado? Ela, talvez? Adorava seus beijos, às vezes se lembrava do seu calor ao abraçá-la e lhe escapava um sorriso, vez ou outra se via feliz ao pensar nele... Espera, mas isso não é amor! Droga, precisava dormir, esticou o corpo, ajeitou-se sob a coberta, relaxou o rosto. O quanto ela gostava dele? Ele significava muito para ela; à medida que seu dia corria, mais crescia uma vontadezinha de falar com ele, de saber do seu dia, de contar as bobagens rotineiras de mais um dia. Significava muito por quê? Maldito ar condicionado, forte demais - ela aumentou a temperatura. Talvez uma entrega inicial excessiva tenha trazido responsabilidades muito pesadas para um jovem relacionamento de jovens. Talvez isso tenha sido o motivo de ele significar tanto, talvez ele signifique muito compulsoriamnte, talvez ela imponha isso inconscientemente... Ela deitou de bruços, botou uma almofada sob a barriga, esticou os braços. O que fazer? Largar ao vento? Deixar-se entregar? Forçar de si o amor? Deixar o carinho dar - ou não - lugar ao amor? Um sentimento talvez breve, talvez duradouro, talvez real, talvez intenso, talvez feliz, talvez decepcionante, talvez platônico, talvez animador, talvez catastrófico, talvez recíproco, talvez unilateral, talvez, talvez, talvez..
Se com ele os dias eram muito mais agradáveis e se a vontade de enchê-lo de beijos não passava, é porque aquilo a fazia bem e ela deveria deixar tudo continuar assim. Então o ar ficou leve, suas pálpebras começaram a pesar, ela ajeitou o rosto sob uma mão, sua respiração ficou suave. Ainda sem saber que seria feliz na companhia dele aquele dia, lembrou-se do seu abraço, do seu sorriso, do seu cheiro e decidiu que no dia seguinte ela iria, mais do que simplesmente vê-lo, querer vê-lo, e então, com um discreto sorriso pregado aos lábios, adormeceu.

4.4.11

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...

É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.

Vinícius de Moraes

Não deixe o amor passar

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

Carlos Drummond de Andrade

É diferente

Não é que eu não gostasse do seu sorriso, não, não, nada disso. Quando eu o admirava, ele podia ser um sorriso lindo, mas o que era aquele sorriso? Era um sorriso - tão lindo! -, mas só um sorriso lindo. Você podia estar sorrindo para o universo inteiro, mas certamente não pra mim. Nem por isso eu deixava de ficar interessada e até hipnotizada de vez em quando...
Hoje, às vezes, seus cílios se beijam, se separam, você sussurra palavras no meio desse breve despertar e volta a dormir enquanto eu me perco na doçura do seu piscar e me palpita o coração uma coisa que borbulha, que me embriaga e me deixa fora de mim... E eu me aconchego em você, sinto sua pele quente, você me aperta para si, entreabre os olhos e esboça um sorriso pra mim, o mais lindo de todos... Seu sorriso me convida a sorrir junto e fico impotente, com um sorriso preso ao rosto enquanto meu peito está cheio de uma felicidade paradoxal, ora tão suave, ora tão intensa...
Infinitos sorrisos para todo o universo, ainda que durassem a eternidade, não valeriam um instante daquele sorriso para mim.

3.4.11

Escorre aos litros, o amor.