Bailam juntos no salão
E é impossível ter um
Sem se deixar tomar pelo outro...
Ele me toma pela mão -
Com licença, moça -
E logo já sou dele...
Dele ou do outro...
Dele e do outro...
Ou sou só dele ou já vejo um outro.
As luzes fazem só penumbra,
O balanço é lento.
A melodia transita entre
O clássico e silêncio sepulcral.
Vejo um casal se confrontando:
Ela não aceita; ele insiste.
Meto-me no meio e o puxo -
Por favor, um instante -
Sorrio pra ela e o tento,
Com um olhar dúbio.
Afastamo-nos:
Sou dele.
Logo volto para elas,
Ouço suas lamentações e, céus!
Ela tem um ponto!
Ah, largo esses tontos!
Há tantos por aí a valsar...
O lustre que pende reflete a luz,
O cristal multiplica e a reflete, tão tênue.
Procuro a claridade e encontro-a em cada canto do salão.
Deslizo pelo chão... Macio, derrapante.
Um braço me contorna a cintura e me guia...
Sussurra-me...
Leva-me...
Respiro fundo, me desvencilho...
Já sou tomada novamente.
E de novo...
E de novo...
O ar do salão é como o cheiro da chuva.
Devaneios.
(No que eu pensava mesmo?)