17.5.11

Relacionamento

Arnaldo Jabor

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa: "- Ah, terminei o namoro... - Nossa, estavam juntos há tanto tempo... - Cinco anos... Que pena... Acabou... - É... Não deu certo". Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro? E não temos essa coisa completa. Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível. Tudo junto, não vamos encontrar. Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele. Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona... Acho que o beijo é importante... E se o beijo bate... Se joga... Se não bate... Mais um Martini, por favor... E vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer. Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... Ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão? O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo. E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar... Enfim... Quem disse que ser adulto é fácil?

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(Fernando Pessoa)

16.5.11

15.5.11

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Álvaro de Campos, 15.01.1928)

O nada

A expectativa sobre o que não foi -
E que nunca mais vai ser,
Não nesta hora, não neste tempo
(E quem garante que jamais será?).

É o cheiro,
é o beijo,
o abraço,
o sorriso,
a voz,
mais nada.

Só isso,
E isso já é nada.
Estar feliz me faz triste. Toda a controvérsia que há na minha indiferença magoa porque sei que, ainda que não de imediato, ainda que talvez não por tanto tempo, sentirei invertidos os sentimentos.

121

A indiferença ao saber;
Mas a dor de te saber ali,
Do outro lado,
Ofegante, descrente,
Com medo.

Ah, o medo...
Não posso mudá-lo
Se tem razão.

11.5.11

unvorstellbare Gefühle

Das Problem ist, dass ich dich ganz doll lieb habe. Eigentlich ist das nur ein Teil des Problemes - ein anderer Teil ist diese besorgniserregende Unsicherheit. Ich könnte dich mit Zärtlichkeit überraschen, aber das Risiko schreit nach mir. Vielleicht wäre es besser achtunglos zu handeln, obwohl mein Gehirn nicht an das Thema ,,Vorsicht'' zu arbeiten aufhalt. Meine schöne Wörter über Liebe wollen aber auch nicht auf mein Mund kommen - sie erzählen mir manchmal, dass sie selbst Angst haben. Wieso könnte ich gegen sie was machen? Plötzlich denke ich daran, gegen sie zu kriegen und sie aussprechen aber während ich nach Kräfte suche, entmutigt mich die Unsicherheit, deshalb laufen die Ideen weg. Warum sollte ich die Realität befürchtigen? Ist meine Realität nur eine Fantasie meiner Vorstellung? Es ist zu dunkel wenn ich barfuß wandere, die Lichte sind mir zu schwach um das Boden sehen zu können. ,,Vorsicht, dass kann Verletztungen verursachen''... Egal ob es mir gefällt, ob es weh tut: der Punkt ist, dass ich jetzt viel Zeit bräuchte, ihn auf mein Herz aufzunehmen. Seit ich angefangen habe, diesen Text zu schreiben, hört mein Gewissen nicht mir an den Ohren zu wispern: ,,gib auf, es ist schon unmöglich zurück zu gehen''. (Als ob ich ihn verlaßen wollte!) Es müsste nicht Energie ausgegeben haben: das weiß ich schon lange her und die Idee, dass ich nicht gegen diese Liebe machen kann ist genau so angenehmend wie an seinen Armen zu sein...

8.5.11

É pesado

É pesado demais. O sofrimento se impõe inabalável e me prostro diante da sua presença tão imponente. Toda a realidade com que sonho se mistura à realidade ao meu redor formando a realidade em que vivo e, ainda que me perca feliz no meu abrigo falacioso de palha, preocupo-me. Lá me fiz feliz. Fiz-me feliz, mas receosa - receosa do vento mais sereno fazer toda a palha vir ao chão. Com você ali, eu cabia feliz e segura ora entre meus braços, ora entre seus braços, ora entre nossos braços (esses últimos os melhores). Hoje, enquanto a água me escorre os cabelos, que caem e deslizam pelos meus ombros, tento me conformar que, se os pilares do meu refúgio não são seguros, é hora de procurar um novo abrigo. Não importa o quanto de água tenha percorrido minha pele, não estarei satisfeita com a realidade. Quando mergulho nos seus olhos e estou empanturrada de alegria, tão doce, tão pura, preciso de você e da realidade em que nos inventei. Deixar seus olhos não é uma hipótese para mim, este ser confuso que já mal sabe o que escreve. Intrigo-me com essa ideia: tê-lo, portanto, é uma certeza? Longe disso. Uns diriam que aí está a magia: na incerteza. Para mim, não. Aí está a dor irreparável, a de saber que o que poderia ter sido transformaria por completo a história (fosse isso a continuação do presente, fosse isso um outro rumo). O medo é, ironicamente, um sentimento corajoso. Ousa se revelar nas horas mais impróprias, em que estou hipnotizada por um presente tão delicioso. Ele destrói tudo. Quer me convencer de que é arriscado deixar os capítulos seguirem, de que cada linha a mais é um risco maior. Acendem na minha mente palavras como "dor" e "sofrimento" e o clique da lâmpada quer me fazer enxergar que estar feliz no escuro é aceitar estar cega. Não estou. Sei bem do que se trata: estou apaixonada por essa magia. Encho meu texto de dois pontos e travessões porque ele não é nada além de descrições da razão e devaneios dos sentimentos. Sei bem do que se trata tudo... É medo de que ser feliz hoje me torne infeliz mais tarde. Melhor não sentir do que angustiar uma dor, do que nutrir um sofrimento doentio; não quero deixar minha alma adoecer. Sei, racionalmente, que seus olhos são só mais um par de olhos e quero me deixar convencer de que isso é verdade, mas minha respiração suave reflete um interior feliz ao sentir seus cílios na minha bochecha e já estou certa de que seus olhos são o que já houve de mais encantador no mundo. As luzes se apagam, a casa é tão segura, seu sorriso reúne toda a felicidade que eu posso viver e eu a entorno na minha boca depois de beijá-lo até não conseguir mais. Completo encanto. Posso dar voz à consciência - olhe o quão arriscado isso é! - e então tatear as paredes, acender a luz - clic - e buscar o chão ao meu redor, ver a fragilidade das paredes de palha, procurar segurança (quem sabe não me arriscar mais aos seus beijos...); contudo já não sei se é o que eu quero... Amarei nosso abrigo até a tempestade; e, ainda, quem escreveria as linhas se seguiriam à magia que me sopra o ar que respiro quando estou com você, as linhas que me apaixonariam, se eu desistisse desse ar, se eu desistisse delas? Devo desistir, mas não posso, não consigo... Sensações, inseguranças, ideias, hipóteses, sentimentos, temores pesam dentro de mim. É pesado demais.
Todas essas linhas talvez não façam o menor sentido: o fato é que dói.

30.4.11

Preguiça de viver

Vivo, sobrevivo, me pego respirando e não é nada disso. Não foi com isso que eu sonhei... Também não foi com carruagens e um palácio, não foi com medalhas nem com troféus, não foi com Natais com a ceia farta, tampouco com contratos e promoções, nada disso. Não sonhei. Viver dá trabalho demais, sonhar suga as energias trocadas por muito suor na colheita diária (e ora infernal) da sobrevivência. Me deixa, me larga aqui quieta, quero descansar, quero a inércia em cada canto de mim. O dia está nublado, esqueci as janelas abertas, o vento me incomoda. Deixa o vento, deixa os arrepios. Começa a chover, sinto água, pingos, gotas, moléculas, definições da existência de algo - da água, de pingos, de gotas, da chuva - despencarem sobre mim; me molham, me encharcam, me congelam e eu ainda quero estar lá e nada faz sentido. Não é que eu queira estar lá: não quero não estar lá. Quero estar em lugar nenhum. Transformo o tapete no meu lugar nenhum, me encolho, tento desaparecer, fim. Decreto pausa à existência e o cérebro entra em standby e logo se desliga. Por uns instantes sou nada, quero ser nada. As gotas vão e vêm e existem tanto quanto eu, vivem tanto quanto eu. A água evapora, formam-se nuvens, desabam gotas, tudo recomeça e nada faz sentido. Onde se esconde a felicidade? A praticidade de me esticar no chão e não viver acalenta meus desejos mais profundos de querer ser nada. Exaurida da busca pela felicidade, essa utopia maldita sonhada há milênios, entrego-me às obrigações básicas da sobrevivência (que vez ou outra acredito ser vida). Quero ofertas
de felicidade me batendo à porta e estampando encartes promocionais a juros zero de forma que esticar a mão me permita agarrá-la e dominá-la definitivamente - se ela existir... Viver - utopia segunda, devaneio da fantasiosa felicidade - sem tê-la não me é uma ideia concebível. Ela tem de existir, decreto! Gosto de estar ali, com tantos pensamentos vagando num espaço ainda maior de tempo, numa velocidade que tende a zero à medida que o conformismo com a realidade falaciosa se aproxima. Gosto? Se gosto, me agrado; se me agrado, estou contente; se estou contente, posso estar alegre; se estou alegre, posso por um instante ser feliz? Abro os olhos molhados, olho através da janela a chuva caindo lá fora, indiferente aos meus sentimentos, volto a não compreender nada e prefiro me ausentar da vida afogada na ignorância sobre ela. Estou ali, o sangue vaga pelos meus tecidos, impulsos nervosos me percorrem o corpo, pensamentos infinitos se chocam, se unem, se reprimem, se manifestam, respiro e ainda estou viva. Venta, faz frio, novamente me arrepio. Enxergo a escuridão sob a minhas pálpebras e não sinto mais nada. A chuva ainda castiga as ruas e os pingos ainda batem sobre as minhas costas quando o telefone toca. Faço menção de andar até ele, levanto meu tronco para esticar a mão e alcançá-lo. Passo a mão sobre os olhos que então veem turvo, leio seu nome, meus lábios criam um sorriso e, finalmente, vivo feliz.

Lindinho

Estou com sono, quero dormir, mas já não posso mais adiar uma confissão: me lembrar de você me faz feliz. Imersos na rotina citamos a felicidade e pensamos nela sem, no entanto, saboreá-la. Você, contudo, me dá esse prazer ao correr pelas minhas lembranças sorrindo enquanto dorme seu sono inquieto - e é tão inquieto! Você se vira para a esquerda, para a direita, procura me tocar, dobra e estica os braços, puxa a coberta e a abandona, seu corpo ainda hesita sobre se mexer mais uma vez... É um sono inquieto, porém não perturbador, mas apaixonante. Como uma criança cheia de energia que mal para quieta, você se agita incessantemente - e vez ou outra me beija e, ah, você não imagina o efeito do seu sorriso sobre mim! Como tê-lo ao meu lado é feliz, como seu abraço é reconfortante! Nesses lapsos de alegria, tão pura, tão ingênua, vejo como você importa, o quanto a sua doçura é encantadora... Contenho ímpetos de procurá-lo e dizer "gosto tanto de você!" me perguntando se isso o traria um décimo da satisfação que eu sinto só ao ler seu nome. Sou desconfiada e insegura, mas, juro, não é por mal! É que eu duvido que eu possa te fazer feliz ao menos um pouquinho do que você já me faz... Doce é a embriaguez da felicidade! Já não é mais uma opção pra mim não gostar de você - eu já gosto muito dessa embriaguez...

26.4.11

il fait chaud

Você me abraça com o corpo quente, um leve arrepio toma conta da minha perna; ele também alcança meu pescoço, que se deixa deitar no seu ombro - faz calor. Grudo meus olhos nos seus indecentemente, com uma fome voraz: é mais que necessário, preciso devorá-lo para sobreviver. Tento cobrir suas costas inteiras com as minhas mãos, aperto-o contra mim num abraço desesperado por engoli-lo; volto meus olhos em chamas novamente para os seus, desconfio de sua respiração estar levemente ofegante, embargo-nos num beijo aflito por nos incorporar um ao outro. Minhas mãos deslizam pelo seu corpo quando, entre abraços mais fortes do que eu supunha poder dar, beijo sua boca, seu rosto, seu pescoço, agarro-o e me deixo ser inteiramente enfeitiçada. Meus olhos cruzam com os seus ainda mais uma vez e, com os corpos exauridos da urgência de ter um ao outro, você me agracia com o sorriso mais doce de todos - um brinde à felicidade.

14.4.11

Insanidade

Sou muitas, sou todas, sou algumas, sou nenhuma.
Uma infinidade de eus são bombeados por esse meu coração -
inquieto, pobre dele!
Tantas coisas habitam este espaço tão limitado do meu corpo,
tantas coisas povoam o universo das minhas ideias...
Sou arte e todo ser humano o é
na destreza dos seus reflexos mais humanos.
Somos a arte da vida, a arte da existência.
Carimbo, nos meus diferentes arrepios,
diferentes situações, histórias, emoções, temores,
e logo alago sem pudor meus olhos em lágrimas
e logo alago sem pudor meu rosto num sorriso.
O céu negro vira azul, vira roxo, lilás, rosa;
os raios do Sol caminham pelo meu quarto;
de uma vez por todas tenho certeza: magia!
Espalham-se em mim as sensações mais escandalosas,
vou dos pensamentos mais diversos a alucinações da razão.
Meu corpo fica dormente e, por um instante,
vejo-me presa a um formigamento descontrolado que,
por um instante, pergunto-me não serem mesmo formigas.
Sigo à risca a insensatez de todos os poetas:
deixo sutis vestígios de cada um dos meus infinitos eus e,
entre versos desafinados,
assino minha loucura,
delineio o cortorno de uma alma,
alma encharcada de amor e de uma urgência insana,
urgência insana de testar todas as possibilidades da vida,
vida desesperada para ser vivida.
Os peixinhos beliscam meus pés...
Como é lindo.

É talvez o último dia da minha vida.

É talvez o último dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
(Alberto Caeiro)

Pássaro, um pássaro

A ave presa.
O céu entre as grades prateadas,
Que não brilham -
Não como a bola amarela pendurada no azul.
O limite da gaiola.
O ilimite de lá fora.
Os olhos devoram o novo,
Aquele que às asas caberia.
Alaga-se o coração
De uma tal coisa, um delírio!
Ora, que ideia, pássaro!
Olho a vida pacata aqui,
É pacata, é segura!
Mas... Isso é vida?
É isso a vida?
E a vida lá fora? Sou pássaro!

Ora, que ideia, pássaro!
Você é só um pássaro.

10.4.11

Madrugada

Ela forçava as pálpebras insistentes, sentia desconforto, virou para o outro lado, a luz vermelha do relógio a incomodava. Saiu da cama, reagitou o corpo - que estupidez para alguém com insônia! - e tampou o relógio com uma blusa. Que horas são? Puxou a blusa; eram 2:52h e ela levanta às 7:00h. Droga, menos de oito horas de sono! Como se o problema fosse o sono... Deitou, cobriu-se, descobriu-se, virou para um lado, deitou de bruços, apoiou a perna sobre um travesseiro, nada. A inquietude física era reflexo de um mente completamente perturbada pela insegurança. O quanto deveria confiar? O quanto deveria se deixar levar? Deitou de barriga para cima, olhou para o teto, deparou-se inúmeras vezes com as mesmas indagações e nenhuma resposta. Fechou os olhos, tentando sumir daquelas sombras escuras. Ligou o ar condicionado, deitou. Era ingenuidade demais achar que, com toda aquela agitação, dormiria logo; mais ingênuo ainda era se deixar levar assim... Gostar de alguém, ainda que pouco, é perigoso. O relógio apitou, 4:00h. As horas corriam, as dúvidas se multiplicavam e ela o veria mais tarde. Ela o veria, passariam a tarde juntos, conversariam, se beijariam, contariam históricas, relembrariam um passado de descobertas talvez próximo demais para aquele estado de relacionamento. O pé dela estava um gelo. Cobriu-o, agarrou um bichinho de pelúcia. O corpo queria movimento, o sono não era um opção. Deixá-lo seria uma opção? Ele ficaria desamparado? Ela, talvez? Adorava seus beijos, às vezes se lembrava do seu calor ao abraçá-la e lhe escapava um sorriso, vez ou outra se via feliz ao pensar nele... Espera, mas isso não é amor! Droga, precisava dormir, esticou o corpo, ajeitou-se sob a coberta, relaxou o rosto. O quanto ela gostava dele? Ele significava muito para ela; à medida que seu dia corria, mais crescia uma vontadezinha de falar com ele, de saber do seu dia, de contar as bobagens rotineiras de mais um dia. Significava muito por quê? Maldito ar condicionado, forte demais - ela aumentou a temperatura. Talvez uma entrega inicial excessiva tenha trazido responsabilidades muito pesadas para um jovem relacionamento de jovens. Talvez isso tenha sido o motivo de ele significar tanto, talvez ele signifique muito compulsoriamnte, talvez ela imponha isso inconscientemente... Ela deitou de bruços, botou uma almofada sob a barriga, esticou os braços. O que fazer? Largar ao vento? Deixar-se entregar? Forçar de si o amor? Deixar o carinho dar - ou não - lugar ao amor? Um sentimento talvez breve, talvez duradouro, talvez real, talvez intenso, talvez feliz, talvez decepcionante, talvez platônico, talvez animador, talvez catastrófico, talvez recíproco, talvez unilateral, talvez, talvez, talvez..
Se com ele os dias eram muito mais agradáveis e se a vontade de enchê-lo de beijos não passava, é porque aquilo a fazia bem e ela deveria deixar tudo continuar assim. Então o ar ficou leve, suas pálpebras começaram a pesar, ela ajeitou o rosto sob uma mão, sua respiração ficou suave. Ainda sem saber que seria feliz na companhia dele aquele dia, lembrou-se do seu abraço, do seu sorriso, do seu cheiro e decidiu que no dia seguinte ela iria, mais do que simplesmente vê-lo, querer vê-lo, e então, com um discreto sorriso pregado aos lábios, adormeceu.

4.4.11

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...

É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.

Vinícius de Moraes

Não deixe o amor passar

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

Carlos Drummond de Andrade

É diferente

Não é que eu não gostasse do seu sorriso, não, não, nada disso. Quando eu o admirava, ele podia ser um sorriso lindo, mas o que era aquele sorriso? Era um sorriso - tão lindo! -, mas só um sorriso lindo. Você podia estar sorrindo para o universo inteiro, mas certamente não pra mim. Nem por isso eu deixava de ficar interessada e até hipnotizada de vez em quando...
Hoje, às vezes, seus cílios se beijam, se separam, você sussurra palavras no meio desse breve despertar e volta a dormir enquanto eu me perco na doçura do seu piscar e me palpita o coração uma coisa que borbulha, que me embriaga e me deixa fora de mim... E eu me aconchego em você, sinto sua pele quente, você me aperta para si, entreabre os olhos e esboça um sorriso pra mim, o mais lindo de todos... Seu sorriso me convida a sorrir junto e fico impotente, com um sorriso preso ao rosto enquanto meu peito está cheio de uma felicidade paradoxal, ora tão suave, ora tão intensa...
Infinitos sorrisos para todo o universo, ainda que durassem a eternidade, não valeriam um instante daquele sorriso para mim.

3.4.11

Escorre aos litros, o amor.

31.3.11

A vida não nos deixa passar impunes e vai nos carregando enquanto dormirmos distraídos sem ver a irreversibilidade da linha de sentido único que tudo destrói - o tempo.

28.3.11

C'est mort

Ah, Gabriela, tão doces sonhos! Doces como a menina que passeava pelas ruas com sua saia leve, suave com seu andar de quem toca o chão com a ponta dos pés... Tão doce! Gabriela trazia tanta paz com o cheiro de incenso que às vezes ficava pregado às suas roupas e nos olhos caídos que lhe traçavam sua fisionomia serena... "Talvez ela seja feliz", pensou consigo o homem de terno do outro lado da rua. Nossa imaginação adora se apropriar dos cenários e das personagens sobre quem pouco sabemos e a quem adoramos atribuir fantasias... Ah, o homem não saberia que aquela era a aparência constante de Gabriela, que pouco mudava, fossem quais fossem os ares. A tarde cedeu lugar à noite, os postes se acenderam, as luzes meio amareladas começaram a iluminar as ruas. Ela ainda caminhava - ah, tão doce! Não era só o homem de terno, Hugo também achava isso, por isso batia incessantemente a colherzinha na xícara de café - que já era sua segunda naquele fim de tarde. Como odiava usar sapatos, como camisas sociais o incomodavam! O clima do pub era quente e agradável, um jazz tocava ao fundo fugido do saxofone do músico lá do fundo. Para ele, a noite pediria brownies, talvez muffins ou sorvetes, quem sabe muffins e sorvetes juntos. Pediria; não pedia. O clima era agradável para todos os casais e grupos de amigos que se acomodavam por aqueles sofás, circulados por um calor aconchegante, contraste perfeito ao vento congelante por trás das janelas que davam para rua. Hugo sentia calor demais, suava um pouco, já tinha tirado o paletó quando pediu uma dose de uísque. Mal olhou para o garçom, virou a dose garganta abaixo, os olhos se encheram d'água, ele respirou fundo, se afundou no sofá. Era um homem muito lindo, não nos poupemos dos detalhes: cabelos pretos espetados, barba rala, olhar desconfiado, sedutor - para algumas a roupa social pode até contar como mais um atrativo para ele. Não era nada daquilo o que a moça da saia florida procurava nele hoje, conhecia bem aquela beleza toda e, embora a admirasse, buscava muito mais. Um sininho fez barulho, Hugo correu os olhos nervosos para a porta e lá estava ela. Por que tão tranquila? Será que ela também não sentia o ar desesperadamente pesado sobre si? Ela olhou para os lados enquanto desfazia distraída sua trança, procurando Hugo ao soltar seu fios cor de ouro. Os olhos de paz encontraram os de angústia; ela sorriu; ele forçou um sorriso; ela caminhou em sua direção. "Pronto, vamos fingir que está tudo bem de novo, que não falta nada quando estamos juntos conversando, nos beijando ou de mãos dadas" - ele teve um sobressalto. Ela se deixou afundar no sofá ao seu lado, pegou sua mão e a beijou. Ele virou o rosto, deu-lhe um beijinho. Conversaram - ele contou do dia tenso, narrou minuciosamente suas dezenas de afazeres, reclamou da secretária enrolada que trazia mais problemas do que soluções; ela contou das plantas que ficaram com as folhas secas porque ela se esqueceu de regá-las e falou da sapatilha roxa linda que comprou numa loja ali perto. Ela pediu um muffin e um sorvete, ele pediu um café. A conversa fluía. A chuva, o cachorro que arranhou o sofá - mas tudo bem, ela já queria estofá-lo -, o cafezinho gostoso, a camisa amarrotada. Gabriela sentia a irreversibilidade da situação: os toques não eram mais arrepiantes, os sussuros já não eram mais tão sedutores e, ela sabia tão bem quanto ele, seus olhos negros clamavam por socorro. Faltava a calmaria do amor, a chama que não incendeia florestas, mas que arde quieta e controlada nas lareiras tão acolhedoras. As mãos que se acariciavam eram frias num ambiente inóspito para corações tão gélidos. Ele sentia bem o peso de sustentar aquilo, no entanto não compreendia o que havia de errado naqueles olhos caramelos ou naquela voz ou nas palavras que ela carregava... Ele decidiu fumar um cigarro, procurou seu isqueiro, catou por entre os bolsos, pela pasta. Ela meteu a mão na bolsa, tateou besteiras quaisquer e tirou seu isqueiro. Inclinou-se para acender o cigarro de Hugo; não ligava. Tic, tic, tic, tic, tic e o isqueiro não se acendia. Ali foi selado o fim; ainda saíram juntos, ele foi para a casa dela, fizeram amor, se despediram - e os olhos caídos de Gabriela, diria o homem de terno do outro lado daquela rua, por um segundo pareceram desabados -, mas o isqueiro não pôde trazer nenhum vestígio de chama, nenhuma faísca sequer daquele amor, daquelas cinzas que jazeriam tranquilas cheirando a incenso e a café.

A impotência (e uma pitada de egoísmo)

1/7.000.000.000: esse número sou eu, esse número é você. E eu me pergunto: o que nós somos? Nada, insignificantemente nada, só mais um ou outro dos bilhões de seres humanos que vagam pela Terra. As guerras eclodem e cessam, os cientistas escrevem incansáveis artigos, os campeonatos de futebol começam e acabam num ciclo infinito e nós somos nada. Eu, escrevendo meu texto, você, do outro lado, lendo, e ainda sim somos nada. Não é por poder enxergar ou tocar ou rir ou sentir que somos algo - somos nada. Júpiter é dezenas de vezes maior do que a Terra e nós somos milhões de vezes menores do que a Terra e me envergonha essa nossa insignificância. Morreu um casal num acidente de carro e não são Carlos ou Luisa, mas sim homem de 35 anos embriagado e esposa grávida. Morreram 2, morreu o número dois. Afinal de contas, existir não necessariamente significa ser, muito menos ser algo. Por isso vivemos o microcosmo - então somos algo. As famílias choram a doença dos avós e amargam a rebeldia dos filhos - então avós e netos deixam de ser nada e são algo. Mas até onde? Até onde um problema vai me importar de verdade ou até onde as minhas angústias - estúpidas angústias de uma em sete bilhões de pessoas - vão interessar a você ou ousar tomar sua atenção? Até onde eu importarei para você, aliás, quando importarei para o mundo? Até onde deixarei você importar para mim, você, mais um entre sete bilhões! Até onde aceitarei o mundo ignorar a você, ignorar a mim, ignorar nossas conversas, nossas brigas, nossos beijos, o que acontece entre nós? Como aguentar ver o mundo ignorar o que acontece comigo e com você, que vivemos nesse mesmo mundo? Ignorando as manchetes de jornal, posso ouvir a discussão à mesa de jantar e perceber que, voltando a esse microcosmo, nesse meu mundo que duas dúzias de parede demarcam, posso ser algo também, como será Luisa no seu velório às duas da tarde (já esquecida décadas depois devorada por fungos). Ponho-me a escrever, a cantar, a sacudir as cordas do violão buscando alguma melodia, a pensar, a tentar criar, inovar, inventar, nascer, crescer, viver, rir, descobrir, permitir - a tentar ser algo. Mas está muito quente e abro a janela, abro a janela e vejo centenas de luzes nos prédios e nos carros e no Corcovado e me dou conta: sou nada, você é nada e temos de nos conformar com essa insignificância compulsória e onipresente da vida. (Por acidente digitei "inconformar", mas tive de me corrigir; se inconformar com fatos em relação aos quais somos impotentes é mais do que perda de tempo, é romantismo insensato de um poeta mais do que insensato, burro).

A impotência de viver

Desço a passarela normalmente apressada - horários não são o meu forte. Talvez eu não corresse por querer chegar na hora, mas para tentar fugir daquela realidade. O ônibus já ia saindo, fiz sinal - motorista, motorista, para, por favor... Ele parou, obrigada, bom dia, passei pela trocadora sorridente e me sentei querendo arrancar aquele sorriso do rosto dela. Ela ficaria ali, pendurada naquela maldita cadeira horas e horas daquele dia, pegaria o ônibus lotado, enfrentaria a exaustão para ganhar um salário mínimo, dois, talvez. Isso não pode ser normal. Larguei minha mochila do meu lado e pus os olhos na janela. Não queria voltar e passar pela entrada do metrô de novo, sentir a maior impotência possível. O menino encostado à parede, sentado, largado, com os olhos entreabertos e a mão esticada, os dedos tão finos e fracos se forçando a ficar abertos contando com a mão se enchendo moedas. Eu abro a carteira e notas podem encher as minhas (robustas) mãos. Ainda que eu pudesse tirá-lo dali e mudar sua vida, através daquela janela eu via multiplicada aquela realidade, talvez não nas mesmas condições, mas ainda em situações desumanas. Os barracos se aglomeram e preenchem todo o espaço da visão que não é ocupado pelo céu, e o dia ensolarado seria o mesmo que um dia de tempestade. As tristezas da vida são tantas que a alma pode ser algo um tanto quanto melancólico. Não consegui ser feliz naquele dia, nada no meu mundo - nesse mundo minúsculo em que eu vivo - poderia mudar o âmago amargo do meu ser. Os dedos finos do menino são só mais alguns dos milhões, bilhões de dedos magros de miseráveis que não podem dizer que vir ao mundo foi uma sorte. Como ser feliz se o mundo não o é também?

22.3.11

Lua

Olho para a infinidade de escuridão em que piscam todos aqueles pontinhos. Se nenhuma luz fosse acesa aqui na Terra, certamente seria o oceano de estrelas preso sobre as nossas cabeças o nosso aconchego de cada noite. Quando as nuvens me cedem uns minutos de paixão, esse é o meu aconchego pessoal. Meus olhos, como se fora do meu controle, não se cansam de procurar pelo brilho de cada estrela perdida na imensidão desse céu, uma mais distante do que a outra... Saber que umas talvez nem existam mais é um encanto, um devaneio dos olhos, a prova mais acessível dos limites físicos do universo - da nossa casa. O fascínio que as distâncias astronômicas e que os corpos gigantescos exercem é evidente na curiosidade vibrante dos olhos brilhantes - refletem do brilho do céu ou a emoção de um grande amor? E umas estrelas, unidas por linhas imaginárias, formam umas figuras, despertam a imaginação... Em algumas horas, umas sumirão, outras aparecerão; Vênus nos trará a graça de sua presença e irá surgir ali, pouco acima do horizonte, nos chamando a despertar para os céus. Antes disso, com a mente e o coração imersos na magia que guardam aquelas estrelas, chama minha atenção o coração dos terráqueos no azul. A Lua surge, amarela, baixa, tão apaixonante que penso no que fazer para alcançá-la. Ela reflete a luz do Sol que, caridoso, nos cede o deleite de aproveitar o céu noturno, e ela brinca de apaixonar os homens e sumir poucas horas depois, largando-os solitários e saudosos... Ela caminha pelo breu iluminando as nuvens que surgem ao seu redor e me convida a admirá-la. Então a Lua, como quem quer mergulhar na Terra, se revela alva, brilhante, estonteante. Meu coração para por um instante e decido que não quero mais nada além dela. Através das lentes observo aquela obra-prima da Natureza enquanto penso em desbravar o Mar da Tranquilidade... As horas vão passando e nós ficamos ali, confidenciando segredos, dando atenção às outras belezas que povoam o céu, nutrindo esse amor cego em mim. Ela se despede, desaparece pelos céus, me deixa desamparada. Vou me deitar com sua imagem colada à retina, com a ansiedade de quem conhece a paixão. Pobre dos meus namorados, dos meus amores terrestres... Nada amarei mais do que a Lua.
"Et c'est vrai tu m'as donné
Les plus beaux de mes jours
Et je te les rendais
Je t'ai confié sans pudeur
Les secrets de mon cœur
De chanson en chanson
Et mes rêves et mes je t'aime
Le meilleur de moi-même
Jusqu'au moindre frisson"

11.3.11

je ne suis plus tombée amoureuse, mais je ne peux pas oublier le passé!!!

7.3.11

A hora íntima

Quem pagará o enterro e as flores

Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


Vinicius de Moraes

Trevo

Chovem trevos e eu encho a mão deles; corro para alcançar mais e mais quando, já descrente de tamanha sorte, vejo minha felicidade vindo na minha direção, sorrindo tanto, tanto... De repente é uma tempestade de trevos que me afoga, minhas mãos mal se fecham de tantos trevinhos de quatro folhas que as preenchem. Enquanto isso, a felicidade me abraça como se nunca mais me pudesse soltar! Jogo meus trevos pro alto - de que importam? - seguro-a - ah, linda felicidade! -, encho-me dela até não poder mais!
(Embora não conte que vá perdê-la, guardo uma dúzia de trevos no bolso para possíveis imprevistos.)