31.1.11

Um verde pouco eloquente

Se ele queria azul e eu verde, pouco discutíamos. Eu dizia meia dúzia de palavras, convicta, argumentava desenfreadamente. "Por que você é assim tão eloquente?", ele perguntava. Entre risos e brincadeiras nos divertíamos. Levávamos sempre a tinta verde.
Para um apartamento novo, verde não é nada mau. A casa torna-se quase viva deixando a monotonia do azul e trazendo consigo a dinâmica da natureza. Compramos móveis, uma cama, a geladeira. O apartamento ia ganhando as nossas formas, o nosso contorno. A cama nos abraçava e nós nos abraçávamos e o mundo inteiro nos abraçava.
Ficamos ali por muito tempo. De vez em quando comprávamos algum apetrecho novo e cultivávamos, junto àquelas paredes semi-vivas, nosso amor mais vivo do que nunca.
Aí meus desejos passaram a crescer também.
De início, não brigávamos; bastavam algumas frases para eu convencê-lo de que a minha ideia era boa. Investimos muito do que tínhamos na bolsa, viramos sócios de uma empresa que importava canetas.
Nossas parades verdes já não eram mais quase tão vivas quanto nós. Elas foram sendo esquecidas. De súbito, nossos dias se resumiam a papéis de escritório, a contas, a telefonemas. Enquanto nós ríamos a alegria exaltante do dinheiro, com os dentes saltites, nossas paredes choravam caladas a nossa ausência.
A cama abrigava dois corpos. Ela tentava nos abraçar às vezes, implorando por afago, mas nós nos desvencilhávamos dela ainda de olhos fechados do descanso - não era sono - daquela noite.
Então experimentamos ver nosso dinheiro sumindo tão rápido quanto como surgiu nossa felicidade.
Ele ainda me achava eloquente, porém, de repente, minha voz não era absoluta. Ele ainda cedia, mas não sem discutir e me questionar. Por que raios ele era assim agora?
Corríamos contra o tempo, batalhávamos cada centavo. Se as paredes se sentiam abandonadas, pobre da cama, que agora mal nos acolhia com nossas noites passadas em claro ou nossas sonecas na poltrona do escritório. A solidão não seguiu a etiqueta e não se apresentou a nós, mas fez-se presente como se fosse da casa.
Minhas palavras perderam a doçura e ele parecia cheio de alguma coisa...
As notas desapareceram e só restou o verde das nossas agora tímidas paredes.
Nós nos agarramos ao único fio de esperança para reanimar nosso lar, que degustava o leito da morte: nosso amor. As palavras ternas, os beijos, os abraços de puro carinho, era isso o que tentávamos resgatar. Eu insistia que precisávamos dar uma chance para reaparecer aquele amor que nos acolhia na cama, que pulsava nas paredes, que nos havia levado para aquela casa...
Minha eloquência não foi suficiente e, mesmo que as paredes verdes tenham continuado verdes, elas morreram e ele partiu.

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