22.1.11

Descalça

Ela não sabia o que era o amor e isso nem de longe era problema pra ela. Seus problemas eram outros...

O barulho que ouvia ao caminhar - quando ouvia algo - era o dos seus sapatos batendo ritmadamente na calçada. Era distraída. Arrancou uma flor do gramado ao lado daquela calçada cinzenta de todo o dia. Suas mãos despedaçaram-na no caminho enquanto sua cabeça alternava mil fatos. Os sapatos continuavam os (repetitivos) melodiosos ruídos e tudo o que a cercava não valia a pena ser percebido (exceto a bicicleta de que teve de desviar no caminho).

Essa era ela. Ritmada, contida, indiferente.

Até que uma voz a encantou. Era forte, grave, marcante. Brincava pelo trajeto até seus ouvidos e uma vez lhe petelecou a consciência.

Já não era mais ela.

Caminhava pela mesma calçada cinzenta, mas agora o barulho dos seus sapatos era baixo demais perto do farfalhar das folhas. E, no fim da tarde, as cigarras cantarolavam junto aos outros insetos tão alto e numa melodia tão inconstante que ela era surda aos sapatos. Ainda olhava os olhos do pedestre com quem cruzava - não via, olhava - e enxergava uma pessoa que, assim como ela, carregava algo além dentro de si.

Não vivia mais as sequências que marcavam seus sapatos, mas sim alternadas - e encantadoras - melodias.

Viu uma flor no chão. Desta vez não a arrancou, mas a colheu... Em vez de arrancar suas pétalas, olhou curiosa e atentamente para seu miolo. A flor sorria para ela e no seu cheiro, que dançava pelo ar, eis que surgiu ele...

Ela não foi mais a mesma desde que o amor lhe apareceu. O que importava agora era se sentir descalça, era apenas não ouvir mais o barulho dos seus sapatos.

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