16.12.10

inesquecíveis

Boa noite.

Que honra falar em nome desta 300, a tal gloriosa 300, a inesquecível 300. Uma honra e um também imenso desafio: muitas vezes perguntei-me como falar em nome desses nossos 83 ansiosos corações, cada um provando os mais diversos sentimentos e umas sensações que talvez sequer nome tenham... E como eu poderia escrever um discurso à altura deste grupo único que se despede hoje do Cruzeiro e, portanto, de toda uma vida? É essa a vida que explode dentro de nós hoje e é essa mesma vida que me sufoca as palavras. Pensei que fosse pecado não me sentir capaz de expressar esse choque de emoção de todos nós, formandos; para meu alívio, achei, contudo, consolo no seguinte poema de Drummond:

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Será que eu ousaria demais ao dizer que a poesia de hoje não cabe em palavras? Acredito que não. Se a poesia é a forma mais pura de expressão da alma, então, hoje tudo o que nós, formandos, temos dentro de nós não é poesia, é a poesia - a poesia da nossa vida. Nunca vivenciamos uma mudança tão drástica assim, nós que estivemos sempre em época escolar. A partir de hoje, tudo assumirá formas completamente novas. Deixamos o C com suas cinco estrelinhas pra trás para mergulharmos no desconhecido absoluto... Parece que crescemos, enfim. A nossa vida mudou como nunca até hoje e, agora, hora de selar o fim, de decretar que o tempo não mais nos permite sermos crianças, a poesia da nossa história está explodindo dentro de nós, forte como nunca experimentamos antes.

Antes de falar da nossa trajetória, não posso deixar de agradecer em nome de todos nós às nossas famílias. O maior legado que se pode deixar é a educação. Aqui estamos nós, prestes a ter o diploma em mãos, formados na escola, formados como cidadãos. O reflexo do poder da educação sempre é nítido, que dirá em alunos de um colégio ímpar como o nosso, que concilia a matéria da sala de aula com a nossa velha conhecida "formação do homem integral", associando formação intelectual, cultural e social. Temos, ainda, o incrível diferencial que é falar alemão - e, acreditem, apesar de todas as dificuldades que a gramática da língua nos impôs, es hat sich gelohnt Deutsch gelernt zu haben (valeu a pena ter estudado alemão). Fora o colégio, foram imprescindíveis durante todos esses anos o apoio, o empenho e a dedicação de vocês. Aqui se apresenta hoje a valiosíssima consequência dessa constante preocupação com a nossa educação. Obrigados por terem estado conosco sempre nos ajudando a trilhar os caminhos rumo ao nosso futuro promissor. A família é fundamental no processo de crescimento pessoal e o que vocês fizeram por nós até hoje foi primordial para que nos tornássemos o que somos hoje. Aos nossos pais, mães, tios, madrinhas, avós, que fique a certeza de que todo o esforço valeu e muito. Muito obrigados!

À coordenação e à direção, muito obrigados! Não sei como vocês aguentaram tantos surtos, desesperos, pânicos, sustos e vestibulandos malucos, indecisos, nervosos, como suportaram tantos simulados, aulas extras, horários loucos. Como será que teria sido sem o apoio de vocês? Será que teríamos conseguido? Vocês terem estado tão perto o ano todo, sempre acessíveis e dispostos a nos ajudar, foi essencial. Muito obrigados!

Obrigados a todos os funcionários - da limpeza, da cantina, do refeitório, da portaria, da enfermaria, inspetores... Manter um colégio destas proporções é um feito e tanto, acrescentando-se, ainda, o tratamento carinhoso sempre dispensado aos alunos. Admiramos demais o trabalho de vocês e agradecemos de coração pelo apoio essencial durante todos esses anos.

Aos nossos queridos mestres, nossos mais sinceros agradecimentos. Vocês são responsáveis por muitos dos nossos conhecimentos e, se temos um bom desempenho acadêmico, o mérito é tão nosso quanto de vocês. As equipes de todas as disciplinas construíram em nós, durante esses longos anos, formação sólida e olhos de ver. Hoje buscamos as soluções caminhando por nós mesmos, com o auxílio da nossa recheada bagagem que vocês nos ajudaram a formar. Mas nossa gratidão vai muito além da sala de aula. Vocês foram verdadeiros amigos para nós, às vezes até mesmo pais ou irmãos. Nunca hesitaram quanto a acolher nossos medos ou quanto a abraçar nossas angústias, fossem elas aparentemente relevantes ou não. Obrigados pelo apoio incondicional que todos vocês ofereceram, sem exceção, sem se preocupar com a hora. Significou muito cada abraço, cada bronca, cada palavra de força, cada estímulo, cada gesto de carinho. Obrigados por terem nos ajudado a crescer. Somos eternamente gratos a vocês e admiradores incondicionais. Foi uma honra ter tido aula com profissionais tão dedicados e maravilhosos, que se preocuparam tanto com nossa formação acadêmica quanto com nossos medos e aflições, que assumiram a função de professores e ainda a de grandes companheiros... Como vai ser não ver mais vocês pelas salas, pelos corredores? Este ano acabou e nós estamos de saída, mas saibam que duas coisas ficarão: a admiração e a saudade.

É, o ano acabou e o fim dói. Abandonaremos um dos alicerces sobre o qual nos apoiávamos com toda a segurança. O Cruzeiro foi a nossa segunda casa durante todo esse tempo.
Não posso contar em detalhes a história inenarrável que é a nossa; fico, portanto, com flashes do que vivemos aqui. Crescemos brincando no pátio de areia, aprendendo os amiguinhos das palavras com as Tantes, correndo nas aulas de educação física. Aprendemos a ler, a escrever, começamos a fazer contas e, já trocando a camisa vermelhinha pela cinza, começamos a estudar os animais, o corpo humano, a colonização do Brasil, a formação geológica da Terra, a escrever narrativas. Amávamos o sítio Lajedo, disputávamos as olimpíadas como se valessem nossas vidas - e não valiam? Crescemos um pouco e, estudando no prédio principal, fomos a Mury, a Tiradentes e a Paraty em anos maravilhosos, em que tudo era festa. Falando em festa, e as festas de 15 anos, quem consegue esquecê-las? Tivemos que amadurecer para enfrentar o ensino médio e grandes amigos nos deixaram. Nessa época quase todos nós fomos à Alemanha e tivemos as experiências incríveis de vivenciar país e cultura ao mesmo tempo conhecidos e inteiramente novos. Maior maturidade no segundo ano e, atreladas às responsabilidades de quase vestibulandos, muita diversão - no dia olímpico parecíamos crianças... E a 201 que se cobrisse era circo, se cercasse era hospício, a super 202, a 203 maravilha e a incógnita 204 se juntaram numa 300 memorável.

A poesia de hoje é fruto da mistura desses anos lindos com nosso ano de 300 - e hoje nós a saboreamos, nova e deliciosa.

Nossas manhãs e tardes juntos nos uniram em meio às dificuldades que o vestibular trouxe consigo. Não foi o convívio mais fácil do mundo: espumamos de raiva muitas vezes, outras de desespero, mas por que não dizer também que chegamos até a espumar de alegria? Com esse nosso intenso convívio, intensíssimo convívio, foi impossível não compartilhar angústias, medos, felicidades, nervosismo. Quando mal aguentávamos mais um tempo de aula de tão cansados, ainda faltava uma tarde inteira de aulas frenéticas; quando a exaustão tomava conta de nós, os feriados pareciam quase tão distantes quanto o fim do vestibular. Estudamos e aprendemos demais. Às vezes o cérebro parecia não comportar tanta matéria e o corpo não suportar tanto cansaço. Alívio era, por outro lado, ter sempre os amados amigos por perto - muitos eram aqueles mesmos amigos que nos acompanharam desde pequenininhos - além de ter nossos queridos professores sempre conosco. A ansiedade às vezes nos corroía e o desespero adorava acompanhá-la - nunca faltou, entretanto, um ombro amigo sequer entre nós. Não faltou, também, diversão: tivemos churrascos (e que churrascos), a Festa Junina, as férias, a viagem para Angra, mil momentos de descontração nas aulas (afinal, é impossível ficar concentrado em todas as aulas das sete da manha às cinco da tarde), as sextas-feiras temáticas, a festa de formatura... Mas tivemos simulado atrás de simulado, contabilizamos 885 bolinhas nos cartões-resposta. E não bastassem nossos testes na escola, o vestibular brincava de mudar as regras toda hora e as provas pareciam se multiplicar: 1º e 2º exames de qualificação da UERJ, PUC, FGV, Ibmec, ESPM, ENEM, 1ª fase da UFF, UFRJ, 2ª fase da UERJ, segunda fase da UFF... Aos poucos os apavorados viravam aprovados e, já prestes a dizer adeus, vamos escrevendo sozinhos as páginas que preenchem a história de cada um de nós. Em alguns anos teremos, entre estes formandos, médicos, uma geóloga, bacharéis em educação física, uma cineasta, arquitetas, publicitários, jornalistas, juízes, advogados, promotores, engenheiros de produção, engenheiros civis, químicos, eletrônicos, de computação, de bioprocessos, engenheiras navais, uma cientista política, economistas, designers, bacharéis em relações internacionais, administradores, uma estilista e uma psicóloga. Depois de um ano tão excepcional, em que não faltou alegria, pânico e nostalgia, aqui estamos, prestes a dar os primeiros passos rumo a esse futuro. Então, com nossas escolhas diferentes, nós, antes obrigatoriamente juntos, estaremos agora inevitavelmente separados... E, ecoando nossos últimos gritos “trezentos”, logo o tempo se encarregará de tornar toda nossa vida no Cruzeiro passado e, impiedoso, colocará moldura na nossa história, que penderá na parede da escola, um passado tão próximo em tempo e tão distante em acesso, um fim que nos enche de um vazio... Parodiando Drummond, quando fala de sua cidade natal, Itabira: O Cruzeiro é apenas um retrato na parede, mas como dói...

Quando o fim chega, é impossível sair ileso dessa tal saudade. No recreio da nossa última sexta-feira juntos, nossos abraços foram os mais sinceros, nossos braços não queriam nos deixar ir embora, como se segurar uns aos outros o mais possível fosse suficiente para não nos deixarmos ir, para segurar o tempo, para pará-lo... Não foi suficiente. Mas como esse tempo valeu a pena! Doses de amizade, de companheirismo, de realização e de amor nos embriagaram da mais profunda felicidade, uma felicidade que extrapola os limites de compreensão da razão. Ainda ao lado de Drummond: "Se procurar bem você acaba encontrando/Não a explicação (duvidosa) da vida/Mas a poesia (inexplicável) da vida". Esta noite podemos ter a certeza de que a encontramos. Não houve esforço perdido, nenhuma tarefa foi em vão. Estaremos sempre como sempre estivemos: firmados na pátria do Cruzeiro.

Um comentário:

Rodrigo Albergaria disse...

gostei muito... você foi uma ótima oradora. realmente inesquecível.