27.12.10

Febre

Se eu nunca tivesse tido febre, diria que o corpo febril queima de cólera. Tolice... Só quem nunca teve o corpo ardendo, por fora e por dentro, acha algo assim. A raiva pode até remeter ao calor, ao fogo, e eu mentirei se disser que a raiva não é quente. Mas estar com febre é, ironicamente, um estado muito mais próximo da tristeza e da melancolia do que da cólera. Enquanto o corpo trabalha fervorosamente, sabe-se lá fazendo o que para nos salvar, quando o corpo queima demais, corre uma sensação de melancolia em cada calafrio. Não digo que isso é, hoje, o medo da morte, mas seria essa sensação um resquício do que a febre guardava nos séculos passados? E por que a solidão, a impotência...? Esses sentimentos todos remetem ao frio, ao gelo; no seu canto, a febre arde, queima, incendeia, bota fogo no corpo, esquenta cada parte. No entanto, tal qual já citei brevemente, há o calafrio. É carregado no esquisito frio febril que está um pouco dessa tristeza... Não do fim, não do medo; uma tristeza das coisas, uma tristeza que é do corpo. A máquina também sofre quando algo não lhe vai bem... Damos até espaço às suas lágrimas quando suamos e à sua melancolia nos juntamos quando se espalha um frio repentino pelos membros. Pobre do corpo, eu o condenaria a arder por cólera! É apenas medo de frustrar a nós, a nós, que somos a mente. Deixa-o arder o quanto for, pobre dele...

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