Esperei meses e mais meses guardando meus poucos dias anuais para usá-los agora. Tiro férias.
Tiro férias dos conflitos do dia a dia. Tiro férias da rotina fatigante que consome todas as forças, que suga toda energia, que cansa o mais bem disposto.
Tiro férias dos meus afazeres. Tiro férias dos compromissos, dos telefonemas, dos e-mails que se acumulam, que me entopem, que me consomem. Tiro férias dos pedidos, dos favores.
Tiro férias dos amantes. Tiro férias dos beijos roubados, do coração saltitante, da emoção ao ouvir uma voz. Tiro férias das confidências bilaterais, dos filmes em boa companhia, do fogo incendiando peito.
Tiro férias dos amigos. Tiro férias das risadas, dos problemas, da via de mão dupla. Tiro férias das tristezas, das companhias, das festas. Tiro férias dos segredos, das feridas, da lealdade.
Tiro férias da família. Tiro férias da falta, do amor puro, da cobrança. Tiro férias do carinho, do zelo.
Tiro férias da casa. Tiro férias da toalha em cima da cama, da escrivaninha entulhada de uma papelada de semanas atrás, da perseguição da vassoura. Tiro férias do armário colorido, das canetas que falham, das plantas que precisam ser regadas.
Tiro férias dos livros. Tiro férias dos contos dolorosos, das histórias instigantes, das biografias heroicas.
Tiro férias das roupas. Tiro férias do jeans, daquela velha blusa um pouco pequena demais, daquela calça que já não entra mais. Tiro férias dos brincos, também, tiro férias das pulseiras e colares e cintos e sutiãs que me amarram. Tiro férias do que combina e do que não combina também.
Dou-me férias de tentar dar o melhor de mim e de viver com intensidade assim...
Ah, mal percebi, neste instante de delírio, que tudo o que eu falei, tudo o que eu pedi, foi o impossível... Não se pode tirar férias da vida. Estou fadada a ficar na mesma estação ou embarcar sem a passagem de volta...
Só preciso mesmo é de férias do relógio e de um pouco de solidão.
Acho que vou voltar ao trabalho.
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