A riqueza invisível
Vivemos uma pluralidade cultural excepcional. Cada um que passa por nós, quando caminhamos pelas ruas, traz consigo um universo de singularidades. É no meio dessa mistura de uma sociedade que engloba incontáveis culturas que vivenciamos uma triste realidade: a tensão disfarçada e não assumida da intolerância frente ao que não é igual permeando as relações sociais. O desafio de conviver nos impõe lidar com a diferença, mas isso significa aceitá-la e cooptá-la?
No Brasil, a diferença é a que segrega, a que exclui, a que separa grupos não como distintos, mas como superiores e inferiores. A discriminação devido a hábitos, crenças, costumes e outras particularidades - como a experimentada intolerância sofrida por parte de homossexuais, de religiosos, de mulheres e de cidadãos de baixa renda, por exemplo - faz parte do nosso dia a dia. Mas como uma sociedade como a nossa, fruto de tamanha miscigenação, pode ter alguma expectativa diferente da multiculturalidade? É utopia acreditar numa única cultura que possa ser atribuída a todo o país; vivemos culturas diversas, espalhadas por cada canto, estampadas em cada rosto. Por que ainda insistir em discriminar uma ou outra se não existe soberania cultural?
A falta de respeito com o diferente não se dá apenas em relação à cultura, mas também quanto à etnia. Tomando um contundente exemplo, o negro é tão frequentemente marginalizado que a discriminação parece, às vezes, inata às relações interpessoais. A cidadania se mostra fantasiosa enquanto as raízes históricas do povo são relegadas a um segundo plano. Que ironia é o racismo no Brasil quando o sangue negro corre pelas veias da maioria dos homens desse país! Esse lamentável cenário, herança de um sistema escravista que perdurou até menos de um século atrás, sobrevive embora saibamos, cientificamente, que não há qualquer superioridade étnica. O racismo resiste vergonhosamente impregnado na essência de uma população miscigenada que mascara um convívio ideal.
Falta-nos agregar as diversas culturas e perceber a imensurável riqueza derramada pelas esquinas em cada sorriso de história ímpar. A magia está nas discrepâncias e nesse aspecto podemos nos orgulhar de ter uma das sociedades mais ricas do planeta. Diferença é beleza e a pluralidade cultural é de valor inestimável. Precisamos conhecer sem julgar, ignorando impressões prévias. A diferença pode ser apaixonante – e é! -; basta, como sabiamente sugere o Manifesto do Pau-Brasil, “Ver com os olhos livres”.
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